Dicas & truques

Pensar é transgredir

Autor: Lya Luft

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Estamos na folia, no olho da folia. Na frente e atrás tem folia, dos lados tem folia, em cima tem chuva e tem folia, debaixo tem água e tem folia, porque nós estamos no olho da folia. Quase no para-choque do trio elétrico, pertinho da cantora da hora, do cantor da vez, da banda que arrasta o povo – e nós vamos juntos, mais povo do que nunca, abraçados, pulando feito loucos, bebendo gim na mamadeira pendurada no pescoço.

Com a gente ninguém pode. Pode mais quem chora menos e nós não choramos, nem gritamos. Só cantamos, erguemos os braços, faz de conta que caímos – mas nós enganamos vocês – vocês pensam que nós caímos, caímos nada, foi só spoiler pro próximo influencer.É festa, é festa, é festa. É ratimbum e ratimbum, o funk tá solto, a turma tá solta, o bom é ter surpresas no meio do caminho. Vou te beijar agora, não me leve a mal, não é assédio, é carnaval.

Quem sabe, ontem não fosse tudo que está sendo e com certeza amanhã também não será. A hora é agora, vamos fazer a hora e cair na bagunça, cada um por si e Deus por todos.O agora é agora, é agora, é agora. Vamos aproveitar a chance, pegar mais uma cerveja que já foi gelada e tocar em frente no ritmo dos dinossauros sambando na lua.Você pula, eu pulo, você passa, eu passo e assim vamos em frente, porque hoje é festa, é carnaval.

Amanhã é outro dia, outra hora e outro tempo. O que foi hoje fica no hoje, amanhã cada um sabe de si. Não vou lembrar seu nome, nem sua fantasia, nem a cor dos seus olhos. Carnaval é isso, a loucura enlatada sendo posta pra fora. Vamos que vamos, a hora é agora.Quase no para-choque do trio elétrico, pertinho da cantora da hora, do mais povo do que nunca, abraçados, pulando feito loucos, bebendo cantor da vez, da banda que arrasta o povo – e nós vamos juntos, gim na mamadeira pendurada no pescoço.

Com a gente ninguém pode. Pode mais quem chora menos e nós não choramos, nem gritamos. Só cantamos, erguemos os braços, faz de conta que caímos – mas nós enganamos vocês – vocês pensam que nós caímos, caímos nada, foi só spoiler pro próximo influencer.

Hoje seria o fim do carnaval. Ao meio-dia o Brasil voltaria a girar, com as exceções de praxe insistindo em bater bumbo e tocar corneta. Ao longo das praças, foliões deitados na grama, ainda curtindo o porre, antes de descobrirem que a vida ressuscitou, e o mundo segue em frente, na toada da fumaça dos ônibus recalibrando o ritmo do mundo.

Quarta-feira de cinzas sempre foi fim de folia, fim de carnaval. Foi, hoje não é mais. Agora é só uma parada no meio da semana, acenando com o fim de semana que vem como mais um degrau na longa festa que se estende por três longas semanas e não mais meros quatro dias. Quem pode mais chora menos.

Quarta-feira de cinzas não dá pro cheiro, hoje é só descanso, porque depois de amanhã a festa volta pras ruas e os trios elétricos vão puxar de novo milhares de pessoas pulando como se fosse o último dia e o asfalto estivesse derretendo. Hoje, carnaval é muito mais. Pré-carnaval, carnaval e pós-carnaval. É festa pra ninguém botar defeito e deixar todo mundo feliz da vida fazendo ou deixando de fazer seja lá o que não for.

Imagine alguém de sessenta anos atrás vendo o que corre solto hoje. O tumulto nas ruas tomando o espaço dos salões, as músicas cantadas do alto dos trios elétricos no lugar das marchinhas de antigamente. Que Jardineira, que Pastorinhas, que nada! Agora o funk ferve solto nas caixas gigantes chacoalhando os caminhões. E tudo que podia ser não é, enquanto o que é diz não sou.

Antes, agora era tarde, quarta-feira de cinzas era o dia seguinte da festa. Hora dos últimos desgarrados voltarem pra casa, tirarem a fantasia, entrarem no banho frio e vestirem seus ternos para voltar pro trabalho.  Ainda bem que hoje é agora. A festa só acaba na segunda que vem.