Dicas & truques
Misty
nas nuvens
Escrito por: Alexandre Iunes Elias
Por: Odete Rosa
e-mail: odeterosa9@gmail.com
Por um acaso você já ouviu a música Misty, na voz de Sarah Vaughan? Se não ouviu, faça isso imediatamente, vale muito a pena. E de preferência ouça pela primeira vez com calma e bem alto.
Tem algo de curioso nessa música. Basta ouvir uma vez… e pronto. Você quer ouvir de novo… depois mais uma vez… e outra. Fica uma impressão meio estranha, de que algo não terminou dentro de você, a música deixa um pedaço sempre pedindo replay. Dá até uma sensação de estar dentro daquele filme do Clint Eastwood da década de 70, Play Misty for Me (no Brasil, Perversa Paixão).
Nesse filme, a protagonista liga repetidas vezes para um radialista, sempre com o mesmo pedido, para que ele toque Misty. Começa como uma solicitação qualquer… depois vira insistência. Quando vê, já passou do ponto. Virou perseguição.
Confesso que comigo foi assim também. Só que em vez de eu ser perseguido por alguém, quem insistiu foi a música. Depois da primeira vez ouvida, fui atrás de outras versões e ouvi várias gravações, mas não teve jeito: a da Sarah Vaughan é a mais bonita, disparado. Parece que a música foi feita para a voz dela, ou que ela entendeu algo no vocal que soa como definitivo.
Em algum momento, acabei chegando no nome de Erroll Garner, o autor de Misty. E aí veio uma dúvida inevitável: como alguém compõe uma melodia assim? É simplesmente sentar no piano e sair tentando ou há um tempo maior de construção para a harmonia musical?
Pesquisando mais a fundo, encontrei um vídeo do próprio Garner contando como aconteceu. A ideia surgiu durante um voo de San Francisco para Chicago. Era aquele tipo de momento estranho que tem sol e chuva ao mesmo tempo, e ele viu um arco-íris pela janela, com a água escorrendo no vidro. Uma cena meio borrada, enevoada. Dá pra imaginar que Misty começou ali. Ou pelo menos alguma coisa dela. E ao ouvi-la, fica aquela sensação rara de estar… nas nuvens.
O compositor Erroll Garner, um gênio autodidata, não sabia ler nem escrever partituras. Então, sem conseguir colocar a música no papel, ele a memorizou inteiramente de ouvido, cantarolando a melodia repetidamente para não a esquecer até a viagem acabar e ele chegar a um piano. Talvez por isso diziam que ele era o homem para quem o piano foi inventado.
Depois vieram a letra do Johnny Burke e o sucesso na voz de Johnny Mathis, em 1959 em seu álbum Heavenly. A música virou standard de jazz, dessas que todo mundo conhece e muita gente nem sabe de onde veio.
Num depoimento que vi no documentário do George Gachot (franco-suíço que também dirigiu os filmes sobre o João Gilberto, Maria Bethânia e Nana Caymmi), um pianista falava que já conhecia Misty antes mesmo de saber quem era o compositor (assim como eu). Acho que isso é comum, principalmente para quem gosta de jazz, acaba passando pela música, e o compositor passa despercebido (pelo menos num primeiro momento).
Com toda essa trajetória centenária, dá até pra organizar a cronografia: Erroll Garner nasce em 1921, compõe Misty em 1954; nos anos 60, a música é gravada por nomes como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald (e claro Sarah Vaughan); em 1971 aparece no cinema no filme de Clint Eastwood; e volta em 2025 no documentário de George Gachot, com o título Misty.
De tempos em tempos ela volta à tona. E acho que vai continuar assim. Daqui muitos anos, alguém ainda vai ouvir Misty pela primeira vez… “Look at me…”, e quando percebe… já está nas nuvens.
Nota: crônica inspirada no Dia Internacional do Jazz, celebrado em 30 de abril.
Frase do dia: “Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.” Bob Dylan