Dicas & truques
História de bem-te-vi
Cecília Meireles
Por: Odete Rosa
e-mail: odeterosa9@gmail.com
Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outros até acham que seja apenas antiguidade de museus. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja uma mangueira. Pois neste vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.
Os velhos cronistas desta terra encantam-se com canindés e araras, tins e sabiás, maracanãs e “querejuás” “todos azuis de cor finíssimas…” Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é literatura…
Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.
E é uma pena, pois com nome que tem – e que é a sua própria voz – devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.
O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: “…te vi! …te vi” com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras, achei natural que os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.
Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão – como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira ? – animou-se a uma audácia maior. Não quis saber das duas sílabas e começou a gritar apenas daqui e dali, invisível e brincalhão: “… vi!… vi!… vi!… o que me pareceu divertido nesta era de twist.
O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu time de futebol – que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.
Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar. E cantava assim: “Bem-bem-bem… te-vi”. Pensei: “é uma nova escola poética que se eleva da mangueira!…” Depois, o passarinho mudou. E fez: “Bem-te-te-te… vi!” Tornei a refletir: “Deve estar estudando a sua cartilha… Estará soletrando…” E o ´passarinho: “Bem-bem-bem… te-te-te… vi-vi-vi!…”
Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu nunca tinha ouvido uma coisa assim. Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e, vão diretas ao assunto, ouviram, pensaram e disseram: “Que engraçado! Um bem-te-vi gago!.”
(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira…)”.
Frase do dia: “Se a sua compaixão não inclui você mesmo, ela está incompleta” Buda