Dicas & Truques

Tendo acabado de criar o firmamento

Mario Prata

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Tendo acabado de criar o firmamento, as águas e os continentes, o luzeiro maior para governar o dia e o menor para governar a noite, o homem, a mulher, a zebra, as orquídeas, os elétrons, o umbu e a neblina, Deus quis dar um último toque em Sua obra: num arroubo de lirismo, lá pelas 17h54 do sexto dia, pintou a aurora boreal. É, de fato, um troço estupendo: mais bonito que o pôr do sol, mais improvável que a girafa, mais grandioso que o relâmpago. Era pra ser o ápice da criação, a maior atração da Terra, diante da qual casais em lua de mel deixariam cair os queixos, japoneses ergueriam as câmeras e mochileiros bateriam palmas, contentes por terem nascido neste planeta abençoado e multicolor — mas infelizmente, como se sabe, a aurora boreal não pegou.

Claro: é longe, é raro e é muito cedo, como esses shows incríveis marcados para domingo de manhã, no Parque do Carmo.

Imagina se a aurora boreal fosse nos trópicos, todo dia, seis e meia da tarde? O sujeito está num táxi na avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, olha para o lado, o céu todo verde e amarelo e laranja e roxo, saca o celular, faz uma selfie, esta vespertina tropical!!!” e segue pra casa, satisfeito. Mas não, é para lá da Groenlândia,4:30 a.m., ninguém sabe quando: aí, não adianta reclamar que o público é ignorante e prefere a caretice hollywoodiana e açucarada de um arco-íris.

Fosse só a aurora boreal, beleza, mas a natureza tá cheia de desarranjos semelhantes. Não surpreende: ela foi criada há milhões de anos, nunca passou por uma revisão e ainda é administrada pelo fundador. Se eu fosse Javé, chamava uma dessas consultorias especializadas em fazer a transição de empresas familiares pra organizações, digamos, mais competitivas, e dava um choque de gestão. Nem precisa gastar muito, basta alocar melhor os recursos.

Olha os cometas, por exemplo. Tudo espalhado por aí, nos visitam só a cada setenta, cem anos, às vezes chegam de lado, outras vezes de dia, ninguém vê, baita desperdício de energia.

Por que não otimizar essas órbitas? Fazer com que venham cinco, dez ao mesmo tempo na noite de Réveillon, proporcionando uma espécie de queima de fogos global à nossa sofrida humanidade?

A gravidade é outro assunto que merece uma calibrada: tem que ser mesmo 9,8 m/s2?

Por quê? Como Deus chegou a esse número? Gostaria que Ele abrisse as planilhas para entendermos se cada m/s2  é realmente necessário. Com metade dessa atração nós continuaríamos colados ao chão e seria muito mais agradável se locomover por aí. O mínimo que o Senhor poderia fazer era dar uma amainada de dezembro a março: imagina que alívio encarar esse calorão com 25% menos esforço, durante a “Gravidade de Verão”. Sem falar, óbvio, em 50% pra grávidas, idosos e cadeirantes.

Não tenho dúvida de que o Todo-Poderoso resistirá a essas e outras reformas. Criar o Universo é o tipo da coisa que infla um pouco o ego do sujeito, mas seria bom se Ele se animasse a colocar o mundo nos eixos — literalmente: já repararam como a Terra gira toda torta, envergada como um frei Damião?

Se meu pacote de sugestões não puder convencê-Lo pelo bom senso, quem sabe ao menos uma parte cutuque a Sua vaidade? Ora, El Shaddai, a aurora boreal é um negócio tão lindo, tão grandioso, tão divino, não é justo que siga sendo exibida, ano após ano, apenas para os ursos-polares, as focas e a Björk, não acha, não?