Dicas & truques

O aniversário do cumpadi

por: Juliana Filippozzi

por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Por: Juliana Filippozzi

Desde o dia em que se conheceram, simpatizaram um com o outro. Aos olhos do meu pai ele lembrava meu avô, João Gregório: a mirada azul cintilante, pele amorenada do sol,cabelo prateado e bigodinho bem aparado. Usava o mesmo tipo de chapéu de feltro,camisas brancas com os botões fechados até o colarinho, e calças largas, abaixo da cintura. Devoto de São José, era um sujeito religioso, à moda antiga, dos que tinham sempre no bolso, um lenço ‘Presidente’. O que ele primeiro admirou no meu pai foi lisura dos atos, seu nome limpo na praça. Respeitava os que agiam com retidão e tinham bom caráter. “Coisa de berço e espírito, que nunca muda num homem” – dizia. Era o tipo de parceiro que procurava para fazer negócios.

Começaram a viajar juntos, em busca de pequenas boiadas para comprar. Uma vez por semana reservavam o dia para percorrer longas distâncias cerrado matogrossense adentro, onde as ofertas de boas cabeças surgiam. Revezavam as caminhonetes e aquele que estivesse de carona pagava o almoço; era esse o combinado. Foi nessas andanças e nas muitas horas de conversas de cabine, que foi surgindo uma amizade sincera entre os dois; bem antes de tornarem-se compadres de fato, já se tratavam por Compadre daqui,Cumpadi dali.

Meu pai estava feliz com a parceria, mas logo descobriu porque o Compadre trabalhava sozinho. A primeira palavra que ouviu sobre ele foi ‘sovina’; depois foram surgindo outros predicativos: avaro, mão de vaca, unha de fome, mão-fechada, miserável, agarrado, manicurto, unhaca, fominha, esganado, tacanho, cobiçante, mofino, cainho, mão de finado. Até a Comadre Lurdes, já acostumada nos mais de cinquenta anos de casamento a esse jeito do marido, não abria mão de fazer seu reclamo. Quando se zangava de verdade o Compadre respeitava; dizia que, com mulher quando está ‘braba’nem o diabo pode. Ele, então aparecia em casa com um maço de flores colhidas no próprio jardim. “Eu te amo, minha Lurde” e abria um sorriso bonito, que ninguém mais tinha, sorria com os olhos. No final, ela cedia, fazer o quê? E pegava o buquê. “Te amo também, seu velho pão-duro”.

Nas rodas dos fazendeiros corria o boato de que o Compadre era um homem rico, mas que esta conquista foi por sua avareza e por ser oportunista. Meu pai o continuava vendo como se fosse meu avô e, talvez por isso, aquela fama do companheiro não lhe incomodou. A parceria ia bem; enquanto ele usava de sua expertise como zootecnista para selecionar as melhores rezes, ao Compadre cabia a parte de fechar o negócio. Uma vez na propriedade, meu pai fazia a inspeção e dava seu parecer sobre a saúde da boiada,raça e tempo de engorda; verificava as vacinas, condições de alimentação, hábitos, sabia se o gado havia sido desparasitado ou não. Com isso chegavam à uma conclusão sobre os valores a serem negociados. Era a vez do Compadre; quase sem estudo, era admirável a sua facilidade com os números; aprendera a matemática contando grãos de feijão e fazia as contas de cabeça. Vivo como ninguém, ele não perdia o foco na hora de berganhar; pechinchava pelo tempo que fosse preciso, até conseguir o preço justo e conversava sem pressa, colocando na mesa cada detalhe. Dele nada escapulia, era um perito no assunto.

Meu pai observava, o companheiro defendia o patrimônio, mas nunca trapaceava. Ao final saíam satisfeitos e com ótimos lucros. Tornaram-se mais do que se pode chamar de ‘sócios complementares’; eram amigos dos afetos.

Continua na próxima edição.