Nos Sertões do Araguaia
Poesia do Poeta Cajuruense Dr. Luís Gonzaga do Nascimento Silvério e Carvalho.
Nas terras do Araguaia, há vinte anos passados,
Vi a mata sedenta e os campos ressecados,
Porque a seca bebeu tod’ água da região.
Mas o Araguaia se deslizava tão forte
Entre samambaias, rumando, o belo porte,
Em busca do rico e exuberante sertão.
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Dos vales que eram vistos, muito além, distantes,
A vida era pintada por traços marcantes,
Com filas de capões na linha dos outeiros,
Mostrando na arquitetura toda grandeza,
Dando ao grande bosque mais vida, com certeza,
A plenitude marcante de anos primeiros
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A força do Araguaia mostra em si beleza,
Quando o vigor das águas ferem em correnteza,
O poder do Rio, por ser belo, altaneiro, eleva seu porte,
Prega o nome aos quatro ventos, e brilha, ecoa,
E sobe e aumenta, e luta, e cresce e salta, e doa, Para levar também grande riqueza ao norte.
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Dourados, pinados ,iguarias, no estio,
São servidos à sombra, nas margens do Rio.
Caranhas à moda, ao sabor dos gravatás,
Filés de Piroscas seguidos de cachaça,
Pra festejar a vida que, sem querer, passa,
Por velhas vilas à Tribo dos Carajás.
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Acompanhando o excesso a alta temperatura,
Explode a “boca da mata”’ porque procura
Qualquer meio para manter seu ambiente.
Raios da “tribusana” mancham tudo em fogo,
Queimam a mata só pra ganharem o jogo,
No final de tudo, serão cinzas somente.
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Mas, cresce o poderio da Força do Bem,
Para apagar o império que não lhe convém,
Embora seja este temporário e fugaz
Ao contrário do bem que, certamente, é real
É lógico, todo fato em si desigual
É falso. Nessa dúvida está satanás.
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Porém o verde retornará à sua essência,
Nada há que possa manchar essa conseqüência
Da verdade é que se alimenta a natureza,
Os poderes não grassam quando ilimitados
Ainda pecam por excesso aos anotados, Pois essa essência está no além e com certeza
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Chega, a estação das chuvas, o tempo do amor,
A natureza aplaude com festas em cor,
O Ribombar dos trovões faz listras de fogos,
Sibilam no ar fontes de luz coloridas.
Galhadas nas águas são presas ressequidas, A gana traz morte na extensão desses jogos
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Vive a natureza. Um bando de capivaras
Disparava amedrontado, lá das coivaras,
Pra auto proteção e da fuga se abrigar
Da Suçuarana que, por certo, volta á caça.
Seguindo sempre a presa na constante ameaça,
Atenta porém às pegadas do jaguar.
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Macucos e Mutuns piam nas corredeiras,
Canta, soturno, o jaó lá nas ribanceiras,
Pros lados das correntes que cortam a enseada.
Pia longe o curió à busca de carinhos;
Junto ao grasnar de marrecos, voltando aos ninhos,
No espigão da mata cobrindo a encruzilhada.
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Mas a festa, entretanto, não acaba agora,
A tarde mescla pontos escuros na hora
Que nas barras das fraudas da alta cercania.
Ressoa o tinir da araponga lá no espaço,
Mostrando a mortalha da tarde no regaço
Além do horizonte, na dobra pro novo dia
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Canta o Guaçu. Responde o Chitão no espigão
Longe a Cauã na extrema do sertão.
Cai a noite, chuleando de negro a cascata,
Na ponta da serra onde fecha a corredeira,
Pra que o curso das águas banhe a cordilheira .
Trazendo mais vida à grande vida da mata.
Vem então a noite aparelhada pros saraus ,
Ornada por soturnos cantos de Urutaus.
No vasto salão negro, palco de beleza,
Dos festejos naturais da arte, onde os umbrais
Lembram velhas mansões que já não voltam mais.
Aqui ficados por amor à natureza.
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Na casa co´a viola o caboclo bem contente
Enrola a palha no fumo e pita somente,
Pra viver as lembranças da grande saudade;
Da castração do futuro para ser liberto
Das amarras da cultura que são, por certo, Secretas algemas, prisões da liberdade.
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Porém nada afeta o bem-estar do violeiro
Que geme a viola para seu prazer verdadeiro,
Para viver seu belo tempo de lembrança. .
E chora a viola deixando o tempo passar,
Pra viver quando de nada sabe lembrar,
Porque esse foi seu tempo eterno de bonança
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Na selva rosna o jaguar à beira da toca,
Sibila a orquestra de mil grilos lá na loca,
Enquanto o lobo- guará caça sua comida.
Altas horas. Vêm o caboclo, a casa, o medo
Porque tem que lutar contra o grande segredo.
Ganhar o tempo, o espaço e não perder a vida.
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O importante, porém, é saber que essa vida
É recheada de ilusões e também mantida
Por enganos, poesias, inda por estórias.
Ser feliz é poder ter algo em si de ingênuo,
Crer nas elucubrações de quando pequeno, Pois são elas reflexos das nossas memórias
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Fui feliz por ter ouvido mirabolante
Conto do Eduardo, encontrando seu diamante,
Que clareava sua casa, lá nas Invernadas.
Fui feliz quando eu e o Araguaia sozinhos
Vimos, em São Félix, no Rio os golfinhos
Rosas, brancos, claros, saltando águas quebradas.
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Ser feliz, portanto, é ser ingênuo, é poder
Aceitar a satisfação mental, é crer
Na mãe de ouro, os céus riscando em suas andanças.
Crer no sacy, fantasma, e boto nas favelas,
Que vai a bailes só para conquistar donzelas. É crer, inda, também, na menina de tranças.
