Dica e Truques
De lá pra cá
por: Alexandre Iunes Elias
Recentemente li “Lá é o tempo”, novo romance da escritora cajuruense Maria Fernanda Maglio, a Nana, filha do Dr. Luis Fernando Elias. Além do orgulho familiar de acompanhar mais uma publicação da autora, compartilho algumas impressões sobre a leitura.
A história começa com a morte de Salu, borracheiro muito importante na vida de André, um adolescente que passava boa parte dos dias em sua companhia. O que mais me chamou atenção foi a relação entre os dois. Ali existe um afeto difícil de enquadrar, que transita entre admiração, proteção, amizade e até desejo. O romance não se preocupa em oferecer respostas simples para essa complexidade, e talvez por isso seja tão interessante.
Também me chamou atenção a forma como a memória aparece na narrativa. Há uma dimensão sensorial muito forte, construída por meio de cheiros, gostos e lembranças corporais. O cheiro de graxa, o gosto de cigarro e outras pequenas sensações espalhadas pelo texto fazem com que determinadas presenças continuem existindo mesmo depois da ausência.
O livro tem ainda um elemento investigativo interessante. Anos depois dos acontecimentos, um escritor tenta reconstruir aquela história a partir de relatos fragmentados e memórias incompletas. E aí o livro toca em algo muito familiar para quem cresceu ou já viveu no interior: aquela história antiga que todo mundo conhece um pouco, sobre a qual sempre existem versões diferentes, teorias e boatos, mas cuja verdade parece cada vez mais distante.
Nas cidades pequenas, como Cajuru, essas histórias acabam ganhando vida própria por meio da memória coletiva. Um acontecimento marcante atravessa décadas, passa de pessoa para pessoa, ganha novos contornos e acaba se transformando em algo de lenda. Todos sabem alguma coisa, mas ninguém sabe tudo.
A vida raramente se organiza como uma investigação policial em que todas as peças se encaixam no final. Muitas vezes não sabemos o porquê alguém fez determinada escolha. Outras vezes, sequer entendemos completamente as razões por trás de uma tragédia. Nem tudo tem uma explicação clara, proporcional ou satisfatória. Algumas coisas simplesmente acontecem.
Foi pensando nisso que o título passou a fazer ainda mais sentido para mim. “Lá” sugere um lugar para onde ninguém consegue voltar. O escritor tenta chegar até os fatos. Os personagens tentam compreender o passado. O leitor tenta encontrar respostas. Mas o que existe entre todos eles é justamente o tempo. Um tempo espesso, cada vez mais distante daquele “lá”, transformando lembranças em versões e certezas em dúvidas.
Ao final da leitura, fica a sensação de que algumas histórias permanecem abertas e algumas perguntas continuam sem resposta. Nem por isso deixam de ser verdadeiras.
Parabéns à Nana por mais um romance publicado. Que “Lá é o tempo” encontre muitos leitores pelo caminho.
Frase do dia: “Um dia, a liberdade será tamanha que abriremos as nossas asas sem ferir ninguém.” Pedro Gabriel