Dicas & Truques
Please, libertem Renderly!
Escrito por: Alexandre Iunes Elias
Por: Odete Rosa
e-mail: odeterosa9@gmail.com
Ninguém sabia direito de onde ele tinha vindo, mas as histórias eram muitas. Diziam que já tinha sido preso, que tinha dado um tiro em um homem em outra cidade, que tinha ido embora de lá por causa disso. As conversas lateralizadas eram iniciadas sempre com “dizem”, sem nunca atestar a fonte ou origem, muito menos colocar a mão no fogo. E ele também não ajudava, não confirmava, não negava, deixava as coisas do jeito que estavam. Talvez porque não importasse, ou talvez porque importasse demais.
Renderly cantava no boteco da esquina da praça central e aquilo parecia ser a única coisa que realmente importava. Chegava e pedia uma cerveja e o clássico Paratudo, servidos no copo americano. Logo depois, pegava o violão e ficava até o dia clarear, atravessando a madrugada inteira com o repertório musical quase sem repetir uma música. A sua voz era grave, puxada, lembrava Nelson Gonçalves nos tempos de glória, mas não uma cópia, era mais como um parentesco luzidio de barítonos. Quem escutava ficava, e quem tinha que ir embora mais cedo, sempre voltava no dia seguinte.
No bar de cadeiras vermelhas da Brahma, seu histórico misterioso e supostamente torpe não interferia em nada. Ele continuava chegando, tocando e ocupando o espaço, já totalmente integrado ao lugar e principalmente a boemia. O resto ficava por conta de quem queria acreditar em alguma versão. No fim, todo mundo preferia ouvir sua voz de passarinho do que comentar o passado.
Ele era alto, magro, desses que priorizavam a dieta liquida (se é que me entende). Sempre educado, de um jeito simples, sem esforços ou excessos. Tratava todo mundo bem, como se já conhecesse cada um ali há muito tempo. Cantava moda sertaneja raiz, e quando puxava “O Ipê Florido”, de Chrystian e Ralf, o bar mudava o prumo. Era o coral dos embriagados levantando os copos de Campari, Rabo de Galo e Cozumel, mas lá no bar ninguém chamava assim, era “cu de burro” mesmo, dito alto e sem cerimônia.
O noitecer ia se esticando madrugada e manhã a dentro, sem muito começo nem fim. Quando o céu começava a abrir, alguém levantava da cadeira e descia a porta metalizada basculante, só até onde dava, gradativamente, para o sol não bater direto nos olhos dos vampiros boêmios que ainda estavam ali. Ficava aquele ambiente meio fechado, húmido e meio suspenso. O bar resistia pouco a pouco antes de devolver todo mundo para o dia.
E tinha a senhora do pão, que mora na mesma rua do bar. Todo santo dia ela passava cedo, batia na porta de lata e falava, rindo: “vão dormir seus cachaceiros, sei muito bem que ainda estão aí dentro”. A frase, acompanhada da gargalhada, virou parte da rotina, quase como a última música. Só que ela não batia por implicância, batia porque sabia que lá dentro ainda tinha violão e ainda tinha Renderly segurando o vocal.
Até que um dia ele não apareceu.
No começo ninguém deu muita atenção, acharam que era coisa de uma noite só. Depois vieram outras, e nada. O violão ficou mudo e não encostou mais no balcão. O movimento no bar começou a acabar mais cedo sem ninguém notar exatamente quando isso aconteceu. Foi aí que a senhora parou de bater na porta de lata. Não tinha mais por quê. Não tinha mais música até de manhã.
A história do sumiço foi crescendo de um jeito que incomodava mais a cada dia. Tentavam explicar, cada um puxando uma versão e uma suspeita. Será que tinham prendido ele? Mas nada fechava direito. As histórias voltaram a circular.
Até que um dos companheiros mais fiéis do bar, daqueles que estavam lá todo dia, não aguentou. Indignado de ter que ir embora mais cedo do que o normal, pegou tinta e escreveu a primeira vez num muro qualquer. Depois outro repetiu no muro do coreto da praça, e mais outro na rua principal da cidade. Até a senhora do pão deixou picharem o muro da casa dela, sem dizer nada. Quando perceberam, já estava espalhado pela cidade inteira, sempre a mesma frase, todos pedindo a mesma coisa sem precisar combinar:
“Please, libertem Renderly!”