Dicas & truques

Antigamente eu era eterno

Alexandre V. Iunes Elias

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Cheguei a uma idade que nunca imaginei alcançar. A vida, essa senhora caprichosa, sempre me cobrou caro cada passo que dei. Agora, na casa dos oitenta, estou mais próxima do fim do que de qualquer começo e, ainda assim, acordo todos os dias com a sensação de que algo ainda me espera — mesmo que seja apenas a serenidade da manhã entrando pela janela, junto com o ar mais fresco que o outono traz. Dizem que envelhecer é sentir os dias passando como vultos: lentos no relógio, rápidos na lembrança. Minha memória é como uma gaveta sem rótulo. Às vezes, dela escapa o cheiro de bolo quente da infância, a risada da minha saudosa mãe ou o toque de um bolero antigo que já não sei cantar inteiro. Outras vezes, entro na cozinha e esqueço o motivo. Fico parada por um instante, esperando que a lembrança resolva voltar sozinha, como as folhas amareladas que o vento espalha pelo quintal.

Foi por isso que criei o hábito de escrever tudo o que não quero esquecer.  Nos azulejos da cozinha anoto receitas que vejo na TV, lembretes para buscar os remédios no posto de saúde e frases bonitas que encontro por acaso. A casa virou um caderno vivo. Até as vasilhas da geladeira têm nomes e datas — um cuidado para evitar pequenas frustrações do dia. Escrever, descobri, é uma forma simples de conversar com o futuro.

Nem sempre a memória falha; às vezes, ela protege. Aprendi que esquecer também é um jeito de sobreviver. Nesta idade, muitos já se foram. Hoje mesmo morreu um velho conhecido. Aqui na cidade, quando alguém morre, um carro de som percorre as ruas anunciando o falecimento. A mensagem começa com uma música fúnebre que parece se arrastar pelas calçadas; depois surge a voz que diz o nome, a idade e uma pequena lembrança de quem foi — filho de quem, trabalhador de onde, o que deixou para trás neste mundo que continua girando.

Há um consolo curioso em esquecer. Posso rever um filme ou reler um livro como se fosse a primeira vez. É como se o tempo me presenteasse com infinitas estreias.

Talvez minha memória agora seja econômica e guarde apenas o essencial — um cheiro, um sorriso, uma frase que insiste em ficar.Penso nos outros velhos como eu. Alguns aceitam o tempo em silêncio; outros rabiscam azulejos e anotam recados em tampas de vasilha. Cada um inventa seu jeito de permanecer quando o mundo começa a nos atravessar com pressa demais. Tornamonos mais atentos às pausas, aos bancos de praça, às conversas curtas. Como lembra a personagem Úrsula Iguarán, em Cem Anos de Solidão, “o segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão”.

Não sei quando passei a justificar tudo com a idade. Talvez quando percebi que leite gelado com bolo e bolachas doces me traziam mais alegria do que qualquer outra refeição. O corpo envelhece e busca os sabores da infância, aquilo que um dia deu colo. Cada gesto agora pesa: levantar o braço na fisioterapia, tomar banho sem ajuda, preparar o próprio café. Pequenas vitórias que só quem envelheceu reconhece. A juventude não sabe o valor do que não precisa conquistar. Como escreveu Leminski —frase anotada na minha cozinha —: “Abrindo um antigo caderno descobri: antigamente eu era eterno.” E eu acreditava mesmo nisso.

Talvez por isso o outono me comova tanto. As folhas não caem por fraqueza, mas por fidelidade ao tempo que lhes foi dado no galho. Caem sem pressa, juntam-se ao chão, desfazem-se em adubo, escurecem a terra e preparam aquilo que ainda vai nascer. Porque, mesmo quando já não florescemos como antes, há em nós algo que sabe nutrir. E talvez esse seja o gesto mais maduro da natureza: aceitar o ciclo não como perda, mas como continuidade.