Dicas & Truques

O vibrato que fica na memória

Escrito por: Alexandre Iunes Elias

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Naquela noite, como em tantas outras, dormi no quarto do meu avô, num colchãozinho no chão, ao lado da sua cama. A televisão ficava ligada até tarde, o som sempre alto. Às vezes eu acordava no meio da madrugada, torcendo para que ele estivesse dormindo, assim eu poderia abaixar um pouco o volume para voltar ao sono. Mas, quase sempre, ele estava acordado. Então ficávamos ali, os dois, madrugada adentro, vendo algum filme aleatório que passava na TV aberta.

Tenho uma lembrança viva daquela manhã de domingo. A televisão ainda estava ligada quando começou o programa Sr. Brasil. O apresentador anunciou o convidado do dia: Pery Ribeiro. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Durante a conversa, descobri que era filho de dois grandes nomes da música brasileira: Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, também desconhecidos para mim naquela época. Afinal, era 2009, eu tinha 12 anos, e ambos já haviam falecido décadas antes (fui pesquisar depois: ela em 1972, ele em 1999).

Lembro do apresentador Rolando Boldrin chamando-os de “o rouxinol brasileiro”, mencionando ainda o Trio de Ouro, formado pelos dois e Nilo Chagas. Pery começou a cantar. Ao lado, dois violonistas e um percussionista o acompanhavam. A primeira música foi “Segredo”, composta por seu pai, e a plateia, cheia de pessoas mais velhas, como o meu avô, acompanhava em coro. Estava tudo lindo.

Logo emendou “Caminhemos”, também de Herivelto, e o público explodiu em palmas, cantando ainda mais forte. Achei a letra linda, e a interpretação de Pery ainda mais bonita, cheia de dramaticidade e emoção que eu, mesmo tão novo, consegui sentir.

Depois das palmas, ele olhou para os músicos e disse: “Faz um fá pra mim.” E começou: “Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura, lá no morro…” Era Ave Maria no Morro”, mais uma de Herivelto. Até o próprio Boldrin acompanhou, cantando a música toda. No final, colocaram um áudio antigo, com uma voz feminina em vibrato, enquanto na tela surgia a foto de uma mulher, deduzi ser Dalva. A canção terminou na palavra “Ave Maria”, e a plateia foi ao delírio. Alguém gritou: “Canta uma da mãe!” E Pery respondeu, sorrindo: “É, sim… vamos uma da mãe.”

Então começou “Tudo Acabado”, talvez a mais bonita de todas. Logo nos primeiros versos, a plateia seguiu junto, e Pery se levantou, cantando mais perto do público, com uma afinação incrível e um vibrato ancestral. Quando chegou na segunda parte, me vi completamente tomado: “Nosso apartamento agora vive a meia luz, nosso apartamento agora já não me seduz, todo egoísmo veio de nós dois, destruímos hoje o que podia ser depois.”

Mesmo muito jovem, lembro de sentir quanta beleza havia nos versos melancólicos daquela música. No fim, Pery abriu os braços e encerrou voltando à primeira estrofe formada em quarteto: “Se você volta outra vez… eu não sei”, alongando o “sei” com o vibrato que parecia atravessar o tempo, e um sorriso de artista que honorificou seus pais.

A plateia se levantou em aplausos. Rolando Boldrin o abraçou, dava pra ver que eram amigos de verdade. Eu, ali no chão, estava com um nó na garganta. Olhei para o meu avô, e ele também parecia emocionado, mas de um jeito diferente do meu. Sempre tive uma sensibilidade maior para a música; ele, nem tanto. Ainda assim, compartilhei com ele aquele momento e disse: Que coisa mais linda.

Hoje, eu mais velho e sem mais o meu avô, o destino me trouxe aquele instante de volta. Apareceu na minha rede social um vídeo cortado da gravação do programa, justamente a última música: “Tudo acabado entre nós, já não há mais nada, tudo acabado entre nós hoje de madrugada; você chorou e eu chorei; você partiu e eu fiquei; se você volta outra vez, eu não sei…”

Revê-la me trouxe uma onda de emoção. As palavras fazem mais sentido agora, o hiato e a madrugada, também. E junto com elas, a saudade, da música, daquele domingo, e, acima de tudo, do meu avô.