Dicas & truques
Lembranças e ensinamentos
Alexandre Iunes Elias
Por: Odete Rosa
e-mail: odeterosa9@gmail.com
Quando o conheci, ele já era idoso – mas não um senhor de 65 anos qualquer. Sua presença se impunha naturalmente, sem esforço. Desde o nosso primeiro contato, ele sempre teve uma postura imponente e um rosto amigável. Confesso que mal consigo me lembrar dos detalhes objetivos – o que foi dito, quem estava ao redor, ou mesmo onde exatamente estávamos.
Esse encontro aconteceu no fim do ano de 1997, naquela época minha memória era falha —acredito que a causa seja minha imaturidade.
Com o passar do tempo, nosso convívio foi crescendo de forma natural, quase inevitável.
Comecei a frequentar a sua casa, conhecendo seus hábitos, e ele passou a visitar a minha.
Essas idas e vindas foram dando forma às minhas primeiras lembranças sólidas dessa amizade preciosa. Pouco a pouco, fui conhecendo sua esposa, de presença afetuosa, e seus filhos, tão generosos quanto ele. Era uma família cuja união ia além de um valor pregado: era algo vivido no dia a dia, evidente nos gestos, nos olhares e na cumplicidade. Com o tempo, percebi que não éramos apenas próximos: éramos, de fato, família.
Para ele, a família era sempre o primeiro capítulo de qualquer história. Não importava se eram parentes de sangue ou do coração, se moravam ao lado ou a quilômetros — todos recebiam seu cuidado. De fato, sempre foi considerado o pai de todos, por causa da sua capacidade rara de acolher, apoiar e aconselhar.
Havia, é claro, uma grande diferença de idade entre nós, e talvez por isso nossas conversas sempre fossem carregadas de aprendizados. Ele carregava anos de histórias e experiências que foram moldando meu jeito de ver o mundo. Passei a admirá-lo não só pelo que conquistou ou pelo respeito que todos lhe tinham, mas pelo homem que era quando não havia plateia.
A presença deste homem sempre foi elementar para todos que o conheciam. Entre as pequenas e grandes lembranças ao lado dele, todos os momentos acabavam por eternizar um ensinamento. Lembro dele cantando Carinhoso enquanto dirigia para visitar as fazendas, colhendo tomatinhos-cereja com as próprias mãos ou pegando mangas Palmer na cerca do vizinho, para depois devorá-las após o almoço.
Ouvi muitas histórias sobre seus pais. Não os conheci, mas pelo que contavam, Azziz Elias e Dona Egle foram pessoas ímpares. De algum modo, sempre os enxerguei refletidos nele. Era curioso perceber como, sem que ninguém perguntasse, as pessoas falavam deles com saudade no sorriso, puxando da memória cenas antigas, como quem retira um tesouro guardado no fundo de uma caixa. Eram lembranças vivas, que resistiam ao tempo.
O ano de 2022 marcou nosso último encontro no plano material. Eu completava 25 anos; ele, 90. Despedimo-nos, mas não daquilo que importa. Com tranquilidade, posso dizer que meu avô foi meu grande professor de vida. Dele aprendi a ser forte quando a vida pede firmeza; sensível e empático com quem precisa; amoroso com quem merece — e, às vezes, até com quem nem sabe pedir; carismático com todos; dono de um humor inteligente que desarmava qualquer tensão; e sábio, no sentido mais bonito da palavra.
Sua história, feita de vitórias discretas, moldou uma sabedoria rara e solidificou uma honradez. Ele marcou vidas. O Doutor Luiz Geraldo Iunes Elias continuará vivo enquanto seus ensinamentos e lembranças forem carregados por todos nós. No dia 15 de agosto, completaria 93 anos. Parabéns, meu querido avô!
Frase do dia: “A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração”. Fênix Faustine