Dicas & truques

O Vestido Vermelho 

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Dizem que a roupa faz a pessoa. Que piada de mau gosto. 

Imagine a cena: uma senhora de quase setenta anos entra numa loja de roupas chique. O cabelo, sem pentear. As roupas, velhas. As sandálias, gastas. Nas mãos, uma sacola de plástico amassada. E no rosto… um cansaço que parecia carregar o peso do mundo.

Antes mesmo que ela pudesse respirar o ar com cheiro de perfume caro, duas vendedoras jovens já trocavam olhares e sussurros:

— “Essa aí não vai comprar nada…” 

— “Só veio pra sujar o espelho e gastar nosso tempo.”

E você? Quantas vezes já sentenciou alguém com um único olhar? 

A senhora, com uma voz que mal se ouvia, perguntou se tinham vestidos de festa. As vendedoras se entreolharam com deboche. Uma delas respondeu, com o veneno escorrendo nas palavras:

— “Pra que a senhora quer um vestido assim? Aqui a gente vende coisas elegantes, sabe?”

A mulher não respondeu. Apenas baixou o olhar. Mas, em vez de ir embora, continuou passando os dedos pelos tecidos caros, como se procurasse algo perdido.

E de repente, ela para. Pega um vestido vermelho, vibrante. Ela o abraça contra o peito, e pela primeira vez, um sorriso frágil ilumina aquele rosto cansado.

— “É este. É perfeito” — ela disse para si mesma.

As vendedoras, rindo por dentro, se aproximaram. Uma delas, a mais ousada, disparou:

— “Esse aí custa mais de cinco mil… A senhora vai pagar como?”

A senhora, então, tirou um envelope velho e amassado da sua sacola de plástico. E o virou sobre o balcão de vidro. Uma cascata de notas, moedas, algumas dobradinhas, outras sujas pelo tempo… Mas estava tudo ali. Contado. Exato.

Silêncio. Um silêncio que pesava uma tonelada.

O que vale mais: um cartão de crédito sem limites ou uma sacola cheia de moedas guardadas com sacrifício?

Com a voz completamente diferente, agora tingida de curiosidade, uma das vendedoras perguntou:

— “Para quem é o vestido?”

A senhora, agora com os olhos brilhando por um motivo que ninguém ali entendia, respondeu:

— “É para a minha filha.”

Ela fez uma pausa e continuou:

— “Hoje ela faria dezoito anos. Eu tive minha menina quando os médicos disseram que era impossível… Deus me deu esse presente. 

Ela partiu há dois meses, mas eu prometi que, no dia da sua festa, eu levaria para ela o vestido que ela mais amasse no mundo.”

As vendedoras congelaram.

— “E este… este era o que ela queria. Ela me mostrou numa foto, antes de ir embora.”

A gente tem essa mania terrível de julgar a embalagem sem fazer a menor ideia da batalha que está sendo travada por dentro. A gente vê a roupa rasgada, mas não vê a alma remendada.

E aqui está a grande virada de chave, a que destrói qualquer preconceito…

As vendedoras olhavam para uma senhora pobre. Mas a verdade é que, naquele momento, as únicas pessoas verdadeiramente pobres naquela loja eram elas. Pobres de empatia. Pobres de espírito.

Naquela loja, a mulher mais rica não era a que vendia o vestido. Era a que, mesmo sem ter mais a quem dar, ainda era capaz de transbordar amor. 

Isso muda um pouco a forma como a gente olha para o próximo, não muda?