Dicas & truques

O transtorno em não ler Nana Arena

[Crônica de 4 de março de 2014]

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Imagine você, um cidadão cajuruense, embarcando em um trem numa antiga e histórica ferrovia (como a Mogiana, por exemplo), com destino à Inglaterra no ano de 1900. Esse momento singular e memorável, em plena transição entre séculos, seria repleto de paisagens deslumbrantes e de palácios de pedras ancestrais da Europa. O trem serpenteia o caminho, atravessando vales e montanhas, levando consigo não apenas passageiros, mas sonhos, promessas, segredos e despedidas. Pessoas a sorrir e a chorar se esbarram na viagem, enquanto o cenário ao longo da janela se transforma a cada curva, refletindo os dilemas de quem se encontra nesse trajeto.

Ao abrir o livro Transtorno, da escritora cajuruense Nana Arena, a sensação é semelhante à de ingressar nessa viagem de trem. A autora nos leva a uma jornada ao início do século XX, nos permitindo descobrir novas paisagens internas a cada página, até nos fazer pensar sobre nossas próprias jornadas. A escrita é envolvente e, ao mesmo tempo, repleta de significados.

É admirável como a narrativa do livro, com sua sutileza e força, aborda as relações familiares e interpessoais da aristocracia inglesa, revelando não só os conflitos internos de seus membros, como os da jovem Lucy, a protagonista, mas também as verdades não ditas que permanecem escondidas atrás dos holofotes de uma sociedade que valoriza as aparências e o preconceito.

Em Transtorno, encontramos uma trama poderosa, que explora questões fundamentais sobre identidade, pertencimento e autoconhecimento. Não há respostas fáceis, mas a busca por essas respostas é o que torna a leitura tão tocante e relevante.

O que também impressiona no livro é o modo como cada personagem, desde os mais centrais até os coadjuvantes, se torna uma peça fundamental na construção da narrativa. E entre todos, há um personagem que se destaca com uma sensibilidade única: o jardineiro, Sr. Malt. Ele não é apenas um cuidador do jardim, mas um verdadeiro mentor, com uma erudição ímpar, cuja visão de mundo transcende o papel de um simples podador de rosas.

Quanto à ambientação, a impressão de estar posto em Downton Abbey é inevitável. A grandiosidade dos palácios e fragilidade das relações pessoais e familiares são elementos que lembram a série britânica de forma quase palpável. Mas Transtorno vai além: com seu desfecho  surpreendente, o livro se aproxima das obras de grandes nomes como Pedro Almodóvar e Camila Sosa Villada, cujos finais não são apenas reveladores, mas transformadores. São finais inesperados, que não apenas provocam, mas também revelam de maneira brutal as verdades que se escondem nas sombras da história e dos personagens.

Transtorno é, sem dúvida, um convite a um mergulho nas complexidades da alma humana, e uma oportunidade de refletir sobre temas relevantes. O livro de Nana Arena, com sua escrita encantadora e envolvente, é uma obra que vai além das páginas, tocando os corações e as mentes daqueles que se permitem embarcar nessa viagem de descobertas e transformações.

Contatos para encomenda de livros: WhatsApp 16 99144-3306; Instagram @nanaarena24 (clique aqui para ir ao instagram @nanaarena24)

Frase do dia: “O trem que chega é o mesmo trem da partida.  A hora do encontro  é também despedida.” Milton Nascimento