Dicas & truques

O ANIVERSÁRIO DO CUMPADI

Por: Juliana Filippozzi

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

(continuação do artigo da edição anterior)

Naquele dia vinte de julho, foi aniversário do meu pai. Ainda de madrugadinha ele pegou o Compadre na porta de casa e antes do almoço já tinham fechado negócio: duzentas cabeças de gado Nelore em boa saúde, machos no peso ideal, sem aprumo; fêmeas de úberes firmes, com bezerros de olhos brilhantes e focinhos úmidos. Um ótimo dia. Na volta para casa pararam para um café. O estabelecimento era simples, um desses de beira de estrada, só com uma portinha. Sobre o balcão estava uma estufa para salgados, com bolos de carne frita do tamanho de uma mão fechada, a um preço irrisório de cinquenta centavos, cada! Os olhos do Compadre tilintaram numa ideia de tirar vantagem, já que era o seu dia de pagar o almoço. “Cumpadi, vamos almoçar por aqui mesmo?”. Meu pai não se opôs. “Pode ser, Compadre”. “Quero uma daquelas ali”, pediu o Compadre, apontando para as bolas de carne na vitrine. O homem do outro lado pegou uma das bolas com um guardanapo de papel. Assim que tirou o braço da estufa a bola ficou pequena, do tamanho de um bolinho de carne normal, como os que a Comadre Lurdes fazia em casa. O Compadre fez cara de quem estranhou. “Não, essa não. Quero aquela ali” – apontou bem certeiro dessa vez. O homem devolveu a bola anterior e pegou a indicada, mas quando trouxe para fora, aconteceu de novo: só uma polpetinha de nada. “Mas que negócio é esse? Cumpadi, veja, estão querendo nos tapear”. Meu pai, que acolhia com bom humor a pão duragem do companheiro, logo viu que se tratava de uma lente divergente.

“Não, Compadre. É o vidro que provoca uma ilusão na gente.

“Ilusão de quê?”

“Ilusão de óptica.”

“O que é essa tar de ilusão de óptica?”

“Deixa pra lá. Quer saber? Hoje é meu aniversário, então eu vou pagar o almoço. O Compadre, desavisado daquela notícia, fora pego de surpresa; pensou logo que a ocasião merecia um almoço melhor e, apesar de custar mais caro, tinha honra na palavra e orgulho bem talhado. “Não, hoje quem paga sou eu. Vamos; conheço um lugar na capital.”  Foi então que, naquele dia, meu pai conheceu uma parte do Compadre que nunca imaginou conhecer.                 Em Cuiabá, entraram num restaurante grã-fino, muito do emperiquitado, com toalhas branquíssimas e guardanapos de tecido engomados. Um sujeito almofadinha os recebeu na entrada, coletou seus chapéus de boiadeiro e os acomodou numa mesinha de canto. A mesa estava posta com vários talheres e taças, coisa que nenhum dos dois saberia usar. Assim que se sentaram, o Compadre chamou o garçom. “Pode tirar tudo isso, por favor; deixe somente um prato, um garfo, uma faca e um copo para cada um.”  “Perfeitamente, senhor. “

Meu pai estava preocupado, imaginando como aquela história iria terminar. “Cumpadi, hoje é seu aniversário. Eu quero lhe agradecer por tudo, principalmente pela companhia. “ “Eu é que agradeço, Compadre; não precisava de nada disso. O senhor tem certeza? “ “Mas é claro, Cumpadi, vosmecê merece. Só peço guardar segredo, senão já viu…” “Fique tranquilo, Compadre.” “Agora vamos comer.”

Durante todo o almoço, o Compadre foi muito solícito e divertido; nunca, naquela parceria tinham comido tão bem. Quando veio a conta o Compadre não hesitou; tirou logo do bolso um volumoso talão de cheques e pagou sem reclamar. Era difícil acreditar, mas aconteceu. Aquele aniversário ficou na história e fez parte de muitas conversas entre os dois depois.

No ano seguinte, o Compadre, muito esperto, deu um jeito de naquele vinte de julho ser ele o motorista, assim não teria que pagar o almoço. Meu pai esperava por coisa pior, que num dia desses o Compadre ia querer o troco;  no dia do aniversário dele, ia pedir que voltassem ao tal restaurante grã-fino, e meu pai é que iria pagar a conta. Mas, não; nunca mais voltaram lá. A pareceria durou anos; rodaram mundo, com boas risadas, bons negócios, aventuras e o poeirão da estrada. Não podia ser diferente, faziam o que gostavam, como fez meu avô João Gregório em sua honrada existência. Algum tempo depois que se aposentaram, o Compadre se foi. Partiu dessa para melhor, como dizem naquelas bandas. No velório, ao lado do caixão estava a comadre Lurdes, chorosa, cercada pelos doze filhos do casal e a familiarada. Minha mãe e meu pai se aproximaram para apresentar os sentimentos. O semblante do Compadre era sereno, parecia que dormia com um sorriso no rosto. Num canto uma mulher desconhecida e um jovem de uns dezesseis anos choravam baixinho. Correu, de repente, um zum, zum, zum de que a tal era amante do Compadre. A fofoca foi parar no ouvido da Comadre Lurdes. Pra quê? Veio aquela braveza dela, misturada com o luto e começaram a discutir. A outra não deixou por menos, dizia que era seu direito estar ali. Então a história estava confirmada. Os filhos do Compadre queriam expulsar a mulher e o jovem, que decerto era irmão deles, lógico, e começou um bafafá, coisa de outro mundo. Alguém disse que a amante e o filho só queriam o dinheiro do Compadre e que não iam levar nada. Uma cadeira, saída não se sabe de onde, voou pelos ares num instante, meu pai e outros amigos interviram, as pessoas tropeçavam nas coroas de flores, as velas caíram no chão, a desordem estava feita. Meu pai tirou a dona e seu filho de lá, minha mãe ficou para acalmar a Comadre que estava furiosa, xingando palavrão, mas não era para a amante, era para o Compadre. “Seu velho safado, desgraçado. Como pôde fazer essa desonra comigo? “. Foi então que, no meio daquela confusão, surgiu no velório um tal de advogado. O Compadre tinha deixado um testamento. Diante da urgência dos fatos, o Doutor achou por certo fazer ali mesmo, na frente dos presentes, a leitura do documento. Abriu uma pasta de couro marrom brilhante e começou a ler o tal papel. O Compadre deixara uma fazenda formada para cada filho e a sede, com todas as benfeitorias e muitas cabeças de gado para a Comadre. Para a outra, a amante, chamava-se Ilda e o filho do casal, Francisco, deixou a propriedade que comprara para ela anos atrás, que era também para onde o Compadre ‘escapulia’ para encontrá-la. Depois deixou uma quantia em dinheiro para ambas, a fim de acabarem de pagar a educação de Francisco e dos dois filhos mais novos do Compadre com sua Lurdes.

E assim acabou-se a confusão, o tempo acalmou os ânimos, cada um seguiu com sua vida.

O Compadre se foi e deixou saudades. Meu pai sentia falta do parceiro todos os dias e agora, mais do que nunca, sabia que a sua fama de pão-duro era falsa. Na verdade, ele viveu para os outros, pensou na família e estimou os amigos. O Compadre não era perfeito, como nenhum de nós é; mas assim como meu avô, viveu uma vida boa e carregava no peito um coração enorme, igual ao seu São José.

Fim

Frase do dia:

“Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.”

Martha Medeiros