Dicas & truques

Amor e batatas fritas

Autora: Ivy Cassa

Por: Odete Rosa

e-mail: odeterosa9@gmail.com

Foi em 2000 e alguma coisa. Nos conhecemos em um tour por  Nova York (segundo um ex, “um trago no telhado”) e, não sei se pelas fartas doses de Cosmopolitans  que bebemos, se foi sincronicidade ou coincidência, nos conhecemos na porta da lanchonete “ponto de encontro” dos turistas e (acho) que nos apaixonamos à primeira vista .

Tanto é que, dois dias depois, eu me despedia da Big Apple após mais um encontro meio diabólico que tivemos enquanto aguardávamos o meu transfer para o aeroporto.

Amor de praia não sobe a serra, amor de NY também não. Ainda mais se você morar no Brasil e ele na Austrália!.

Mas éramos resistentes: engatamos um namorico à distância, até porque as horas de voo e o fuso horário não colaboravam. Claro, sentíamos saudades um do outro, (quero acreditar que sim da parte dele). Só sei que, mais ou menos quando eu estava saindo do escritório, ele acordava e, quando eu despertava, ele estava indo dormir. Tranquilo. O amor vence barreiras temporais.

Depois de 3 meses de dengo interoceânico, finalmente chegou a nossa vez – iríamos nos encontrar em Singapura. Teve robe de seda com rendas branco, sandália vermelha salto agulha, Veuve Clicquot amarelinha no balde de gelo, e ele chegou com seus olhos azuis demolidores!!

Não sei dizer se foi a melhor viagem da minha vida, mas está entre as top5. Nunca me dei tão bem com alguém que eu só tinha visto duas vezes e em ocasiões tão inusitadas. Tudo parecia encaixar em todos os sentidos possíveis.

Mas descobri também que amor de Singapura também é como amor de praia. Não subiu a serra, não atravessou continentes e eu nem entendi porque ele deixou a alça do meu vestido verde molhada de lágrimas quando nos despedimos no aeroporto. Não havia mais vida sem ele. Austrália e Brasil tinham de ser tipo ponte aérea São Paulo – Rio de Janeiro. Só que ele tinha sumido (ghosting?). Seria por causa da distância? Ainda havia a África entre nossos continentes! Tinha até o Japão! Não teve jeito.

Por um infortúnio, meu pai faleceu assim que cheguei ao Brasil, e acho que ele ficou sem jeito de me dar um fora em pleno luto. Luto dura pouco – creio que ele imaginava – e, depois da missa de sétimo dia, sumiu de vez. Sumiu não, porque ele me devia o dinheiro da metade dos hotéis suntuosos em que ficamos e eu cobrei. Depois de alguma hesitação e cálculos exóticos, ele depositou para mim o que achava que devia, sem esquecer de descontar a metade da porção de batatas fritas  e o vinho  que bebemos na última noite, quando fizemos um happy hour na Marina que se estendeu tanto que perdemos o barco para voltar ao píer do hotel, mas eu estava tão entusiasmada, apaixonada e eufórica que até fiquei feliz por termos perdido o barco. Era muuuuito mais divertido voltar caminhando pela passarela de luzes. Eu com meu vestido vermelho Carlos Miele, ele com uma camisa bonita que o próprio passou na minha frente no quarto antes de sair. – um sonho de homem.

Muitas vezes, estar em uma piscina no 57o andar na Ásia pode levar a uma sensação de euforia, poder e medo. Depois que ele foi embora e mudei para outro hotel (adoro experimentar hotéis), o amor se esvaiu . Não fosse pelas nossas contas a acertar, nunca mais teríamos nos falado. Depois dizem que tudo acaba em pizza .

No nossa caso, acabou na meia porção de batatas fritas e meia garrafa de vinho que ele descontou do PayPal que fez para pagar para os hotéis que estavam na minha conta. Justo.

Ele que pegasse as batatas fritas e o vinho e enfiasse … deixa pra lá. Não foi o único a fazer esse tipo de presepada comigo, mas eu vou contando aos poucos pra não esgotar meu repertório. Quem sabe daí não sai mais um livro?!

Frase do dia:
“Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar.  Estamos só de passagem.
O nosso objetivo é observar, crescer, amar…depois vamos para casa”
Provérbio Aborígene