Um instante para lembrar
Por: Juliana Filippozzi
Fim de ano, tempo de recordar… Bem disse Cecília Meireles, “Se em um instante se nasce e em um instante se morre, um instante é o bastante pra vida inteira”.
Eu ainda vejo a menina de uniforme subindo a rua de paralelepípedos, ela sorri para o vento, para cada um que encontra, sorri para tudo na infância; ela é feliz, vai ao colégio com a cartilha ‘Caminho Suave’ na mão e a lancheira, adora a escola; “Grupo Escolar Messias da Fonseca” é o nome da sua primeira escola, fundada em 1909, onde aprendeu a ler e escrever, a cantar o Hino Nacional com a mãozinha no peito, em fila com as outras crianças ela canta ‘Pátria Amada Brasil’, regidas pela primeira professora que é linda, e sorri doce como o suco de caju que serve nos intervalos; primeiro tia Janete, que tornou-se dona Conceição e depois dona Cecília; esta, que tomava a tabuada com a régua na mão, e depois das aulas fazia bolos que eram verdadeiras joias mescladas, quem não lembra? – será sempre tarde demais para esquecer, sentir a textura, o sabor, o derreter na boca – uma festa em que qualquer menino desejaria estar; eu me lembro, a menina branca brinca, de amarelinha no pátio, com as crianças pardas e pretas e brancas, ricas ou nem tanto, tanto faz; percorre a cidade de bicicleta, encontra os primos, pedalam sem parar; exploram, tudo é energia e alegria leve; nos fins de semana vão ao “Cine Yara” com um pacote de balas Chita na mão, é dezembro e outra mágica começa, um filme sobre o Natal; no silêncio, na escuridão, as crianças param de mastigar nessa hora, quando as luzes se apagam e os olhinhos curiosos só querem ver as cenas e o ouvido escutar o som, jingle bells, jingle bells; na primeira fila as crianças gracejam, nesse gracejo o mundo flutua e fica muitos dias no sonho da menina; o Natal é a sua época favorita do ano, ela vai à casa da avó ajudar a montar o presépio, elas põem sobre um forro vermelho de veludo, Nossa Senhora, São José e o Menino Jesus na manjedoura; depois saem de braços dados pelas ruas de pedra preta, entram no primeiro estabelecimento; “Bom dia, senhor Fálsio”, aquele que desenrola com destreza os tecidos coloridos sobre o balcão, e usa um metro de madeira para medição; “Dois metros deste para a senhora. Obrigado”; ele não é alto, mas é forte e simpático, todo branco nos cabelos, no bigode, nas sobrancelhas; ele tem o cheiro bom dos tecidos, nele; na próxima porta, entram; “Bom dia, seu Dodô, como vai? O senhor teria aquele remédio para as dores?”; “Perfeitamente, dona Maria”; ele busca, com a ajuda de uma escadinha, lá em cima, na botica que tem cheiro de vick vaporub, o unguento; ele é esguio, vestido de branco, ele também é todo saído da neve, nos cavanhaques e no bigode farto, quase sem um fio de cabelo na cabeça; “Leve mais esse tônico, é muito bom”; sobre o balcão de vidro, no rótulo, ela nota, há um homem carregando um peixe enorme nas costas, a menina lê: ‘Óleo de Fígado de Bacalhau’; saindo dali encontram o sorriso e a educação em pessoa, “Bom dia doutor Pessanha”; “Como vai a netinha, dona Maria? Bom dia”; passam na leiteria para comprar queijo mineiro e são atendidas por dona Nega, que fala rouco, fala pouco, e sorri muito enquanto corta o queijo e o embrulha numa folha de papel; depois vem uma das partes que a menina mais gosta: a boutique de dona Cynira; ela é delicada e elegante, como a menina quer ser um dia; ela embrulha o presente como se fosse origami, ajustando cada dobra do papel perfeitamente ao conteúdo, com as unhas sempre feitas, e olhando por cima dos óculos de aros dourados quando conversa; saem dali satisfeitas e vão surgindo outros que a menina não conhece tanto assim; uma senhora varrendo a calçada, a lavadeira com a trouxa de roupas na cabeça, o motorista que acena na boleia de um caminhão, tira o chapéu: “Bom dia”; surge seu Alvino, que a menina ouve com o apelido de ‘Cata Osso’, ela não entende bem e não gosta que o chamem assim; ele é simples, mas sorri sempre, como quem está de todo contente, bem nos olhos; então as distrai o padeiro, que passa levando uma cesta de bom cheiro, é enorme e de vime, a menina segura a mão da avó na padaria; ah, que delícia de aroma, igual a este, jamais; ela agora está na ponta dos pés, quer enxergar as coisas lá dentro onde os pães nascem, e as formas são puxadas por uma grande pá de madeira, para depois serem trazidos cá para frente, na vitrine, que é um show à parte; sua avó diz que aquelas ali a gente come desenrolando, são roscas de coco amarelinho; as bombas de creme, um insulto, e aquela outra chamamos ‘pataca’; “Duas desta aqui, por favor, mais duzentos gramas de biscoito”; e saem pela cidadela, a cidade dela, da menina onde tudo é novo, o primeiro de tudo um pouco, nascedouro; há os dias bons e os dias ruins, tomar injeção na farmácia do Hélio nunca é bom – criança que é criança sempre chora nessa hora; tomar o sorvete de creme holandês do Cido é mais que bom; dia de vacina de meningite, ninguém quer, mas de um jeito torto é bom; dia de brincar é todo dia, ganhar bombom dos tios e juntar a primarada, uma delícia; avistar o parquinho da tia Judith, a “Casa dos Menores”, explorar o jardim de bicicleta, subir e descer calçada, rodear o coreto, esperar noite para ver a fonte, de água dançante azul, amarela, verde, aquarela, na cidade da menina que se chama Cajuru, do tupi kaá iurú, que significa ‘Boca da Mata’, também intitulada por seus cidadãos, Rosa de Prata; Cajuru, de tão pequena ficou grande em representantes da política e dos esportes; até o pai da menina levou o nome consigo quando mudou-se para o Centro-Oeste do Brasil, e lá ficou conhecido como Antônio Cajuru; mas esse é assunto pra uma outra história… a menina segue e bem na janela vê uma dama: dona Doca sorrindo de cabelo prateado, ela tem a bondade nos olhos e um livro nas mãos; a menina passa e sorri igual, tem de seis para sete anos, é quase natal; ela agora está diante do presépio no terraço de vidro de dona Benedita, que usa ovinhos de verdade para enfeitar; ali se demora, ela pensa, ovos de codorna, talvez de passarinho; belo, belo… então a menina vai direto ao casarão dos Gregório, do seu avô João e o casarão que tem quartos para doze, treze filhos, a menina conta, mas não lembra bem; a imagem vem com sons, tia Tita de avental refogando o arroz cheiroso de alho, ao lado de dona Sinhana, a outra avó que a menina ama, essa dos cabelos puxados para trás, enrolados num coque grisalho de três, talvez quatro voltas; ela vê os homens que entram e saem, vêm da lida, a mesa do café ainda está posta, o pão caseiro e uma latinha amarela de Manteiga Matarazzo, deixam farelinho na toalha; na cozinha, que agora tem o cheiro de toucinho defumado, o caldeirão de feijão ferve um caldo grosso, no imaginário, a cor marrom como se fosse rosa carmesim; as mulheres se apressam e querem saber se a menina tem fome, a avó lhe afaga os cabelos e sorri, manda a menina ir ao quintal procurar fruta, mas sem exagero porque o almoço não tarda; a menina sai, vai à casa ao lado, encontra tia Lídia fazendo Fuxico, que também usa ovinhos de verdade no presépio dela, a menina pega um para ter certeza, está curiosa e o ovinho estoura, a geminha amarela escorre, a menina corre, sabe que fez arte; lá fora encontra Bialina, que chamamos Bia, ela cuida de todas nós, crianças, é como se fosse da família; ela ralha com a molecada, que passa as mãozinhas sujas em seus lençóis recém lavados no varal; num instante a menina está em festa com as primas, pulam o muro e lá estão dona Guiomar e seu João Marciano já almoçados, cheirando à salsa e alecrim em suas cadeiras de balanço; eles chamam nomes, “Rita, Cássia, Roberta, Juliana, cuidado! – as meninas já estão nos galhos, lá em cima, chupando manga; sabores e o seu pingar… quase estragam o almoço, depois do almoço acompanham os homens, vão na carroceria do trator Massey Ferguson em cima dos feixes de cana, tomando cuidado porque tem uns espinhozinhos, ela não se lembra bem se estão nas folhas ou nos bagos, só lembra que entram na pele e quase não se vê, depois tem que tirar com a pinça, a menina sabe o que é dor; chegam no engenho, depois da lagoa, dali quase se avista o cemitério, e um festival de mais sabores começa, caldo de cana, garapa, infância, melaço e rapadura no final; nunca se viu tanta doçura, a menina adora o avô João, sentir na pele o pelo do cavalo dele e o feltro do seu chapéu; ela volta feliz para casa, de shorts e rasteirinha, no caminho cumprimenta dona Mafalda e seu Sílvio Barruffini, sentados na porta de casa, mais doces do que as próprias jabuticabas que têm no quintal; ela nota as linhas nos rostos, os pequenos sulcos que chamam rugas, a menina acha bonito, porque gosta de gente mais velha e nem sabe direito o porquê.
NOTA DO EDITOR
A partir desta edição começamos a publicar uma crônica de Juliana Felippozzi que terá continuidade nas proximas edições. Ela é filha do casal Rosita Felippozzi e Antônio Gregório, ja falecidos.