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Escola de sustentabilidade

O chorume produzido pelas minhocas e a água de chuva são utilizados na horta da escola

Por: Waldyr Buentes Filho

Dos principais problemas modernos da humanidade, o desgaste dos recursos naturais do planeta é o mais preocupante para as gerações atuais e futuras. O desmatamento indiscriminado, a contaminação das fontes de água doce, o aumento da temperatura e a maior incidência de desastres naturais e o desaparecimento de espécies animais indispensáveis para o ecosistema são alguns dos alertas disparados pelo planeta para a reflexão de seus habitantes que dependem destes recursos para a manutenção do princípio mais elementar da sobrevivência: a vida.
Diante de um problema tão sério, o conceito de sustentabilidade ganha maior importância –a cada dia- na necessidade de preservar os recursos fundamentais da Terra. E embora se fale muito sobre este conceito, na prática não existem muitas ações em favor da sustentabilidade.
Porém, não é isso que acontece na Escola Estadual Geraldo Torrano, localizada no Jardim Maria Gorete, em Cajuru. Uma das cinco escolas da região de Ribeirão Preto a adotar medidas sustentáveis. Com seu projeto aprovado no “Programa Nascentes” do Ministério da Educação (MEC), a escola Geraldo Torrano foi a primeira da Diretoria de ensino da região de Ribeirão Preto a receber os recursos para a execução de suas idéias sustentáveis, implantadas desde o final do ano passado.
Apresentado em 2013, o projeto da escola conta com uma série de medidas que visam o uso racional dos recursos e que já estão implantados e funcionando com sucesso. Nossa reportagem visitou a unidade de ensino e pôde constatar as mudanças realizadas na estrutura do prédio da escola e a influência na rotina de alunos, professores e funcionários.
Os recursos enviados pelo MEC (cerca de 12 mil reais) permitiram o investimento em ações de estrutura do prédio como a substituição de todos os pontos de iluminação antigos por modernos refletores de led e a construção de um sistema de captação e armazenamento de água de chuva, que promoveram uma significativa economia das contas de água e energia elétrica, conforme explicou a coordenadora pedagógica da escola Isabel Carvalho dos Reis Santos: “Utilizamos a água de chuva que captamos na lavagem de todas as salas e dependências da escola e com a iluminação de led, conseguimos uma maior eficiência na iluminação com a diminuição dos custos. Neste ano de 2017, ainda não usamos água da fornecedora nenhuma vez na lavagem da escola”, afirma a coordenadora.
Além da melhoria da estrutura, o projeto da escola conta ainda com um forte cunho educativo. Estas medidas contribuem com a forma como é tratado o lixo da casa de cada um, promovendo uma ação onde os alunos trazem resíduos como tubos de pasta de dente, pilhas e baterias, escovas de dente e bucha de pia para serem descartados em locais apropriados pela própria equipe da escola. Conforme explicou a professora de ciências Maria José do Nascimento Mencucini: “O óleo de cozinha usado também é trazido pelos alunos para escola, onde é transformado em sabão para voltar para casa dos alunos como um produto finalizado”. Ainda segundo a professora, o sabão produzido pelos alunos também é distribuído em eventos e uma oficina de reciclagem de papel também funciona nas turmas escolares da unidade.
Horta na escola vem da idéia de um aluno
A participação dos estudantes no projeto de uma escola mais sustentável não se limitou à proposta da destinação de resíduos. Encantado com as mudanças que vem acontecendo na unidade, um aluno do 8º ano lançou uma idéia que logo teve o apoio de seus colegas de turma e dos professores, funcionários e coordenação. Inspirado na horta que o pai criou para produzir verduras, o jovem Caíque sugeriu a criação de uma horta de verduras no ambiente escolar para que os produtos possam ser utilizados na preparação da merenda escolar. Idéia dada, todos partiram para a ação e em um espaço inaproveitado da escola a horta foi implantada. Tudo orgânico, sem uso de fertilizantes ou defensivos. Para a nutrição das plantas, a escola adquiriu uma composteira, através da qual produzem húmus de minhoca para a fertilização da horta. “Tanto a horta, quanto o minhocário são cuidados pelos alunos, diariamente”, afirma o professor de matemática, Hermínio Barbosa de Magalhães. São os próprios alunos do 8º ano que fazem a manutenção do sistema. Os estudantes Isabela e Jean explicam que a composteira recebe restos de alimento não ácidos e uma cobertura de serragem que evita o mau cheiro. Esta mistura se decompõe e alimenta a terra repleta de minhocas que fica no segundo estágio da composteira. Num terceiro nível, o chorume decanta e é retirado diariamente para ser misturado na água que rega a horta. Isabela revela ainda, que não conheciam o poder das minhocas na fertilização agrícola e Jean considera começar o processo de compostagem em casa, também.
E não é só no trabalho que os alunos contribuem. Todas as decisões sobre o programa são tomadas de forma coletiva, desde a escolha das verduras e legumes a serem produzidos, como também a forma que será cultivado. “Fizeram uma enquete no Facebook para decidir o que seria plantado. Depois foi necessário aprender a técnica”, confirma o professor Hermínio que se disse admirado ao descobrir que a berinjela requer polinização entre pés machos e fêmeas para poder produzir frutos.
Em entrevista ao Jornal de Cajuru, alguns alunos do 8º ano rasgam elogios ao projeto sustentável da escola Geraldo Torrano. Caíque acha que o projeto beneficia tanto a escola como os alunos. Heloise e Jaqueline estão contentes que a horta reaproveita um espaço que não era utilizado. Clara diz que o projeto é motivo de orgulho para ela e que está feliz em aprender tantas coisas novas. Isabela ressalta que as medidas reduzem o volume de lixo que vai para o descarte e Jean acha que a participação no projeto pode influenciar nas escolhas futuras dos alunos.
O “Projeto Nascentes” não é o primeiro programa do governo aproveitado pela Geraldo Torrano. As árvores que rodeiam o prédio escolar foram compradas com verbas do PROEDI. As sementes destas mesmas árvores são coletadas pela Fátima Moraes, e as mudas são doadas na comunidade. Por meio do projeto “Farmácia Viva” a escola produz plantas medicinais e especiarias que são utilizadas na produção de bolos e chás que todos adoram e por intermédio do PROEM arrecada verbas para viagens e atividades culturais dos alunos. A participação da escola em projetos governamentais ganhou destaque até no evento AMBIARTE, realizado na cidade de Sertãozinho, com escolas de todo o Estado. “A maioria das escolas desconhecem esses programas e ficaram sabendo por nossa causa”, afirma a coordenadora Isabel que completa ainda: “Ao fim de cada projeto, reunimos todos e apresentamos um novo”.