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Por: Odete Rosa
e-mail: odeterosa9@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DICAS & TRUQUES

É assim que acontece a bondade

Rubem Alves

Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera…”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas. Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras.., Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensiná-la?
Seria possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? Como, se ele não ouve? E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer para comunicar cores e formas a quem não vê? Há coisas que não podem ser ensinadas. Há coisas que estão além das palavras. Os cientistas, os filósofos e os professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas. Coisas que são ensinadas são aquelas que podem ser ditas. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. Por exemplo: eu acho possível desenvolver uma psicologia da solidariedade. Acho também possível desenvolver uma sociologia da solidariedade. E, filosoficamente, uma ética da solidariedade… Mas o saberes científicos e filosóficos da solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como a crítica da música e da pintura não ensina às pessoas a beleza da música e da pintura. A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.
Palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Os saberes, todos eles, são pássaros engaiolados. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Ela não pode ser dita. A solidariedade pertence a uma classe de pássaros que só existem em voo. Engaiolados, esses pássaros morrem.
A beleza é um desses pássaros. A beleza está além das palavras. Walt Whitman tinha a consciência disso quando disse: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo a alma…”. Ele conhecia os limites das suas próprias palavras. E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar não se encontra nas palavras que ele diz; antes, aparece nos espaços vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espaço vazio se ouve uma música. Mas essa música – de onde vem se ela se não foi o poeta que a tocou?
Não é possível fazer uma prova sobre a beleza porque ela não é um conhecimento. Tampouco é possível comandar a emoção diante da beleza. Somente atos podem ser comandados. “Ordinário! Marche!”, o sargento ordena. Os recrutas obedecem. Marcham. À ordem segue-se o ato. Mas sentimos que não podem ser comandados. Não poso ordenar que alguém sinta a beleza que estou sentindo.
O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras.
Mas há coisas que não estão do lado de fora. Coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera…
Sim, sim! Imagine isso: o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes – lembre-se da história da Bela Adormecida! Elas poderão acordar, brotar. Mas poderão também não brotar. Tudo depende… As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões…
Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…
Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.
A solidariedade é como um ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!”. A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam… Da mesma forma como o poema é um transbordamento da alma do poeta e a canção, um transbordamento da alma do compositor…
Mas fica pendente a pergunta inicial: como ensinar primavera a gelos e areias? Para isso as palavras do conhecimento são inúteis. Seria necessário fazer nascer ipês no meio dos gelos e das areias! E eu só conheço uma palavra que tem esse poder: a palavra dos poetas. Ensinar solidariedade? Que se façam ouvir as palavras dos poetas nas igrejas, nas escolas, nas empresas, nas casas, na televisão, nos bares, nas reuniões políticas, e, principalmente, na solidão…


Frase do dia:
“Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.”
Khalil Gibran

Marcos Sordi

 

DIAS PERIGOSOS

Ano passado, domingo de eleições, lá fui eu bem cedo para exercer meu direito de voto. Após cumprir minha obrigação cívica, aguardava a saída de minha esposa quando, não mais que de repente, vejo um grande amigo de infância, o Pedrão, negro como as asas da graúna (de branco, só os dentes e a barba) que, durante muitos anos, foi motorista de caminhões e ônibus por esse mundão de meu Deus. De longe, acenei e gritei: - E aí, Negão, tudo bem?
Prá que? Levei uma bronca monumental de minha esposa: Você está doido! Chamando-o de Negão! Você pode ser preso! Fiquei surpreso e, até, chateado. Repito que sou amigo de infância do Pedrão e, desde que me conheço por gente, sempre o chamei de Negão. Aliás, sempre chamei de Negão não só ao Pedrão, como também o fazia ao saudoso Raspinha (esteja onde estiver, aquele abraço Negão!) e eles nunca reagiram de forma agressiva ao termo, primeiro porque sabiam que nunca o fiz pejorativamente, jamais de forma racista, muito pelo contrário, sempre o fiz por pura amizade. Até hoje, sempre que o Pedrão Negão passa na banca de jornais e revistas que tenho ali na Rua Voluntário Silvano (Júnior, obrigado pelo merchandising), batemos longos papos recordando nossos tempos de criança, da Cajuru d’antanho (bonito isso!), dos tempos que não voltam mais.
Por que falo isso? Porque o mundo de hoje está chato e, até, perigoso. De uns tempos para cá, ouve-se, com muita frequência, palavras que no meu passado de criança e juventude, eram absolutamente raras. Homofobia, xenofobia, racismo, intolerância, preconceito, discriminação eram palavras raramente pronunciadas, mas que, nos dias de hoje, qualquer coisinha é motivo de utilização. Bullying, então, nem pensar! Chamar alguém, hoje, de gorducho, narigudo, Pinóquio, porco-espinho, dentuço, pezudo, tucano, é motivo de processo. Nos meus tempos de criança, isso se resolvia na hora. Se a pessoa não aceitava o termo, o pau comia, a gente ia pra briga e o assunto era facilmente resolvido. Lembro-me, muito bem, do João Nahime que, ao escutar o Chico Tincani ou o Bedeu chamando-o de Rim-Tim-Tim, Peba ou Tortim, pregava um cascudo na cabeça dos dois e tudo voltava ao normal. Hoje, ao invés de resolver-se o problema no braço, é um tal de choramingos a papai e mamãe e esses procurarem o Conselho Tutelar para interferir no assunto, não raro, com abertura de queixa-crime.
A historinha abaixo, que vi na internet, retrata bem essa situação:
“Outro dia, estava no mercado quando vi no final do corredor um amigo de época da escola, que não encontrava há séculos. Feliz com o encontro aproximei-me, já falando alto:
- Oswaldo, sua bichona! Quanto tempo! E fui com a mão estendida cumprimentá-lo. Percebi que o Oswaldo me reconheceu, mas antes mesmo que pudesse chegar perto dele, só vi o meu braço sendo algemado.
- Você vai para a delegacia, disse o policial que prestava serviços por ali.
Eu, sem entender nada, perguntei:
- Mas, o que foi que eu fiz?
H-O-M-O-F-O-B-I-A, berrou o policial. Bichona é pejorativo, o correto seria chama-lo de Grande Homossexual.
Nessas horas, antes mesmo de me defender, o Oswaldo interferiu, tentando argumentar:
- Que isso, doutor! O Quatro-Olhos aí é meu antigo amigo de escola, a gente se chama assim na camaradagem mesmo!
- Ah! Quer dizer que você estudou vários anos com ele e sempre se trataram assim? Bichona, Quatro-Olhos?
- Isso, doutor, isso vem desde os tempos de criança!
Nessa hora, o policial já emendou a outra ponta da algema no pulso do Oswaldão!
- Então você está detido também.
Aí foi a minha vez de interferir:
- Mas, meu Deus, o que foi que ele fez?
- B-U-L-L-Y-I-N-G! Te chamando de Quatro-Olhos por vários anos durante o tempo que vocês estudaram.
Oswaldo, então, se desesperou:
- Que isso, seu policial! A gente é amigo de infância! Tem amigo que eu não perdi o contato até hoje e ele é um deles! Vim aqui comprar umas carnes para um churrasco com outro camarada, que pode confirmar tudo!
Nessa hora, vi o Jairzinho Pé-de-Pato chegando perto da gente com dois quilos de alcatra na mão. Vendo aquele circo armado, nem mencionei o Pé-de-Pato prá não piorar ainda mais as coisas, mas ele, sem entender nada, ao ver eu e o Oswaldo algemados, já chegou falando:
- Que m.... essa aí, Negão! Que que tu aprontou aí?
Aí, não teve jeito. Foram os três parar na delegacia e hoje estamos respondendo a processos por homofobia, bullying e racismo. Moral da história - nos dias de hoje, encontrar velhos amigos é um perigo!