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Por: Odete Rosa
e-mail: odeterosa9@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DICAS & TRUQUES

Quem não tem namorado

Por: Artur da Távola

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enlou-cresça.


Frase do dia:
“Os que amam profundamente jamais envelhecem; podem morrer de velhice, mas morrem jovens.” Paulo Siqueira

*Esse texto é atribuído também a Carlos Drummond de Andrade. A meu ver é de Artur da Távola. Feliz Dia dos Namorados para todos nós!

Por: Marcos Luiz Sordi

 

 

Comendo melado

Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. Escutei muito esse ditado popular, indicativo de alguma besteira realizada por alguém. Voltei a ouvi-lo esses dias e, desta feita, referia-se à última polêmica envolvendo Neymar, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Neymar já se envolveu em outras polêmicas antes, mas, agora, a coisa é mais séria: acusação de estupro. É o assunto do momento na pátria amada salve, salve, a ponto de merecer quase 20 minutos no Jornal Nacional da segunda-feira.
Em minha vida aprendi que, sempre que ocorre algo mais polêmico, para formar uma opinião mais concreta, temos de escutar os dois lados e, depois de muito pensar, tomar uma posição.
Nesse caso, inicialmente, a jovem que acusa Neymar, disse que, embriagado, ele a estuprou em um quarto de hotel, em Paris, na França. O mais esquisito é que a moçoila, ao invés de procurar de imediato a polícia francesa e denunciar Neymar, retornou ao Brasil, deixou passar 15 dias e só depois fez a denúncia. Por seu turno, vendo que essa acusação pesa demais em sua já desgastada imagem, Neymar gravou um vídeo, mostrou picantes mensagens trocadas com a tal moça e tentou mostrar que estava, na realidade, sendo vítima de uma extorsão.
A história está muito esquisita. A acusação é séria. Estupro é crime, a polícia deve investigar e a Justiça decidir o que deve ser feito. Pelo que vi, ouvi e li, pelas declarações divulgadas, pelo posicionamento dos advogados da jovem, acho que Neymar está, simplesmente, colhendo o que plantou.
Em poucas palavras, rememoremos a vida de Neymar, filho de família pobre, pai mecânico e mãe dona de casa, com um enorme talento para o futebol. Com 10 anos foi jogar nas categorias de base do Santos, time de Pelé e, para isso, mudou-se de Mogi das Cruzes para São Vicente, indo morar com sua família num minúsculo quartinho na casa de sua avó. Com 16 anos, começou a jogar no time profissional, fazer gols, despertou o interesse do mundo e o dinheiro começou a aparecer. Com 18 anos, já famoso, protagonizou polêmicas (quem não se recorda de uma frase de um técnico de futebol à época: “Estamos criando um monstro!”, ao ver um gesto de clara rebeldia de Neymar ao recusar-se a obedecer a uma ordem do treinador de sua equipe e insuflar a torcida contra o mesmo?) e foi pai. Aos 21 anos, foi para o Barcelona, o maior time do mundo, numa transação anunciada de 200 milhões de reais quando, na realidade, foi de aproximadamente 400 milhões. Essa sonegação resultou, na Espanha, em uma multa de mais de 20 milhões de euros (quase 90 milhões de reais) ao Barcelona e a demissão do presidente do time catalão. Aqui, pátria da impunidade, a Receita Federal também abriu um processo para apurar a vergonhosa sonegação, processo esse que se arrasta ao ritmo da justiça brasileira, mais lento que o andar de uma lesma e somente em março deste ano, foi decretado o bloqueio de bens de Neymar na ordem de 140 milhões de reais.
Sonegação à parte, agora, o dinheiro veio em forma de cachoeira. Todos os números na vida de Neymar são superlativos: ganha, atualmente, entre salários do seu time e publicidade, perto de 14 milhões de euros por mês, quase 60 milhões de reais. Isso significa 2 milhões de reais por dia, 84 mil reais por hora, 1.400 reais por minuto, 24 reais por segundo. Neymar fatura, a cada 30 segundinhos de sua nada pacata vida, 720 reais, o que aproximadamente 45 milhões de brasileiros recebem por mês, segundo a PNAD, do IBGE, de dezembro 2017. Essa dinheirama toda permitiu a ele cometer algumas extravagâncias, como: comprar um jatinho no valor de 40 milhões de reais, um helicóptero de quase 50 milhões de reais, uma mansão em Angra dos Reis por 28 milhões de reais, morar em uma casa em Paris de 5 andares, comprar um monte de carros de luxo etc. Em suas últimas férias, depois de vender seu pequeno iate, onde só era possível hospedar umas 20 pessoas, alugou um outro pela bagatela de quase 200 mil reais por dia, encheu de “parças” (dizem que são seus amigos mas, em minha opinião, são meros oportunistas) homens e mulheres e saiu a navegar e farrear pelos oceanos do mundo. Trocando em miúdos: Neymar tem dinheiro, e o direito, para ter os mais caros, luxuosos e sofisticados bens de consumo já produzidos pelo homem, comer os pratos e beber as bebidas mais caras e passar quantas noites de sexo e prazer quiser com as mais lindas mulheres, mas, tem de enfiar em sua cabecinha oca como uma cabaça, que tudo tem um limite. Ele tem de entender que todos os que o rodeiam, em especial seus “parças”, não querem outra coisa a não ser aproveitar-se de seu dinheiro e de seu deslumbramento. Seus assessores têm de mostrar a ele que os exageros, as vaidades, o esplendor que hoje vive, podem virar pó quando menos espera. Passou da hora de Neymar experimentar a humildade, recolher-se à realidade, viver uma vida menos faustosa e preocupar-se somente em mostrar ao mundo o imenso talento que Deus lhe deu. Passou da hora, também, dos dirigentes do time atual de Neymar e da seleção brasileira, deixar de serem babás de Neymar. Ele já não é uma criança. A continuar assim, jamais deixará de ser uma pobre e mimada criança muito rica.