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Por: André Titareli Borges

O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO PRIMÁRIA

Arlene Denise Bacarji


O processo de socialização primária é todo e qualquer aprendizado de caráter cognitivo, afetivo, social, moral, sexual, que vai desde o primeiro dia de vida até os doze anos de idade. Após os doze anos de idade, quando o pré-adolescente já inicia escolhas dos coleguinhas, na escola, na Igreja, na vizinhança, e se estende para a profissão, para o casamento, para mudanças para as diferentes cidades, estados e países, ainda há processo de socialização, mas é o secundário e vai até a morte.
Na socialização secundária a pessoa ou o jovem poderá confirmar, renegar ou modificar alguma coisa da socialização primária (inúmeras coisas não serão modificáveis e nem mutáveis), dependendo como esta tenha sido feita. No entanto, a referência sempre será desta socialização primária, que nunca sairá mais da psique do indivíduo.
Mas então o que é o processo de socialização primária?
Este processo inicia-se quando a criança nasce3, desde o primeiro dia de vida. Ele se divide em três grandes fases – zero a seis meses, 2-3 a 4-5 anos, zero a 7 anos. Aos doze anos as possibilidades de refazer alguns processos começam a se fechar, mas ainda é possível alguns reparos .
A fase de zero a seis meses, com seu desenrolar até os dois anos de idade é a fase em que a criança estabelece com a mãe (biológica ou a que faz a função de mãe) uma relação chamada simbiótica, ou seja, uma relação em que a mãe é um prolongamento da criança. Esta não se separa de sua mãe, e as mães tendem a estabelecer com a criança este mesmo tipo de vinculo. Por isso é importante a presença do pai (biológico ou que faz a função), pois dos seis meses em diante (ou antes em alguns casos), a criança já começa a diferenciar as pessoas e poderá então já ver a presença do pai como um terceiro importante que entra na relação com a mãe. Nesta fase simbiótica, o “olhar” da mãe é essencial, pois é a partir do amor da mãe pela criança e da profundidade deste vinculo que a criança iniciará a formação do seu psiquismo (Id, Ego e Superego), da sua auto-estima, do amor e da visão de si, pois a criança intui e sente absolutamente tudo o que se passa com a mãe. Como já foi dito, a mãe é um prolongamento dela. A entrada do pai é importante para que a criança comece a sair da simbiose com a mãe. Este desenvolvimento se dá até os dois anos, quando a criança sai desta fase e entra em outra.
Dos dois ou três anos até os quatro ou cinco, dependendo da criança, ela entrará nas fases de descoberta da sexualidade, no processo de identificação sexual, onde ocorrerá o processo de “interdição” de extrema importância para a entrada do ser humano na cultura e na vida social.
Vamos aqui, para não nos estendermos muito, realçar duas importantes questões desta fase, que são a identificação sexual e a interdição.
Nesta fase há o que foi o que chamamos de identificação sexual, que é o processo pelo qual, a partir das relações afetivas com os pais, a criança inicia um processo de identificação com o genitor do mesmo sexo em busca do amor do genitor do sexo oposto, ou seja, o menino busca se identificar com o pai para obter o amor da mãe como o pai obtém, e a menina se identifica com a mãe para obter o amor do pai, como a mãe obtém, sempre, no entanto, tentando tira-los do páreo. Mas para isso é importante que o menino admire seu pai (ou quem faz a função) e a menina admire sua mãe (ou quem faz a função) para assim poder querer ser igual de alguma forma. É muito importante aqui ressaltar que nem sempre quando o menino ou a menina não gostam de seus pais, nem sempre esta criança se tornará homossexual, mas sempre que alguém é homossexual essa pessoa teve alguma situação difícil com os pais, ou com apenas o genitor do mesmo sexo que o dele para a identificação. No caso do menino, as mães muito “castradoras” ou mandonas, autoritárias, bravas, podem influenciar muito nesta questão de sua homossexualidade.
Esta fase não é somente importante devido à identificação sexual, mas há algo aqui de extrema importância que é a chamada “interdição”. A interdição é o fato de, quando a criança está apaixonada pelo pai no caso da menina e pela mãe no caso do menino, o cônjuge entra mostrando à criança que ela é uma criança, que esse amor deve ser de filho (a) e que o esposo (a) é o pai ou a mãe e não ela. Isso não é feito de forma consciente ou verbal, mas na forma de atitudes, por exemplo: Em um almoço de família, a criança entra no meio dos pais que estão sentados um ao lado do outro de mãos dadas e os separa. Ou à noite, a criança sai do seu quarto e vai dormir entre o casal. Estas atitudes são comuns e requer uma atitude do cônjuge do sexo oposto ao da criança de entrar em ação e “interditar” a criança na sua fantasia de poder tudo, poder ter esse amor impossível e não obedecer a primeira grande regra social – a regra que proíbe o incesto5. A criança tem uma fantasia incestuosa que precisa ser interditada, pois aí se encontra a primeira grande regra social, sem a qual uma sociedade não sobrevive e sem a qual o caráter da criança começa a não ser formado de forma a ter dificuldades com os limites sociais. Essa atitude de “interdição” é a que vai mostrar para a criança que existem leis sociais que devem ser seguidas, que existe um “outro” que deve ser respeitado. Esse “outro”, no caso, a figura do pai, é quem o introjeta na cultura, na sociedade, na civilização, mostrando que existe uma sociedade com regras e normas a serem seguidas.
Depois então desta grande regra que inicia pelo afetivo, as outras poderão ser introjetadas. As regras sociais, morais e de relações em geral, são introjetadas pela criança na medida em que ela tem o medo de perder o amor dos pais. Quanto mais forte e profundo for o vínculo afetivo entre os pais e a criança, mais eles poderão educar os filhos e terem o resultado que desejarem. Mas este amor não é manipulação, a criança sabe bem quando é verdadeiramente amada!!! Ela sente o amor de forma instintiva6. Também é importante lembrar aqui que impor limites com afeto e diálogo são muito importantes para a vida adulta desta criança.
Ainda neste mesmo contexto de socialização primária, está a formação psíquica da criança, que se refere à estrutura do Ego, Superego e Id. Caso, nesta fase, a criança não consiga estruturar o ego, ou formar o superego, ela poderá ter a chamada cisão do ego na vida adulta, que tanto nas psicoses quanto nas perversões (desvios de caráter) ocorrem. Ou seja, esta fase é que criará na pessoa uma estrutura capaz de suportar as frustrações, capaz de lidar com limites da vida, capaz de viver em sociedade sem lesar o próximo para atender aos próprios interesses, capaz de lidar com certas tragédias sem surtar (psicotizar- enlouquecer), ou incapaz para tudo isso. Nestes casos de psicoses e psicopatias (perversões) existem também as tendências genético-hereditárias das doenças psíquicas, que não se pode negar que existem, porém não é determinante.
Em casos de estruturas psíquicas mal formadas mais a tendência genética, tem-se o perigo da pessoa psicotizar em certa altura da vida. Um surto psicótico pode ocorrer em pessoa de estrutura psíquica mal formada e com tendência, devido a alguns fatores, entre eles podemos citar: uso de drogas, psicotrópicos, algumas experiências “religiosas” e fantasias espirituais, e tragédias no decorrer da história do individuo. Só se pode saber que estrutura uma pessoa tem depois de ver a vida dela e como ela lidou com as dificuldades. Ninguém sabe de antemão quem pode e quem não pode surtar. Algumas pessoas dão alguns sinais, mas mesmo estas podem nunca surtar totalmente.
As famílias podem esconder atrás de uma imagem de perfeição uma realidade extremamente psicotizante, a hipocrisia pode ser uma delas. A criança tem percepção profunda dos fatos, nada melhor para confundir o psiquismo de uma criança do que contradições entre a percepção dela e a realidade, ou seja, a hipocrisia e a mentira são fatores de grande influência e as pessoas que surtam são as mais sensíveis.
Famílias onde tudo é muito claro, dialogado, verdadeiro e possuem profundo afeto, onde os pais se respeitam e se amam de forma a providenciar a igualdade dos sexos, sem sobrepor um ao outro, sem dominações e relações descuidadas de poder, podem até ter suas imperfeições, mas dificilmente geram estruturas psíquicas muito deficientes. E famílias que aparentemente são perfeitas não impedem de terem filhos com problemas, pois as aparências não são capazes de mostrar absurdos que ocorrem na sua intimidade mais reservada, muitas vezes com profundas violências verbais, físicas, psicológicas. Mas apesar de toda esta imensidão de características que citamos nas famílias, a questão afetiva é a mais importante. O grau e a profundidade do afeto e do vínculo com a criança é que vai pesar mais na formação psíquica dela. Por isso também, temos que a formação do caráter é feita de zero a sete anos. Até os doze pode haver algumas formas de reparar. As reparações podem ocorrer mesmo após os doze anos, mas nem sempre é possível, dependendo do grau de desestrutura. Tudo sempre vai depender dos graus de desestrutura.
Por isso, o pecado é reproduzido de geração em geração, e suas conseqüências também. O pecado original é coletivo (de todos) e suas conseqüências também.
Nada pertence somente a um individuo, mas tudo está colocando em jogo toda uma teia de relações sociais, e todos sofrem as conseqüências dos males de um, seja pai, mãe, ou o filho que reproduz com seus filhos o que sofreu em casa.
Toda falta de amor, falta de vínculo afetivo, frieza, dureza de coração, rigidez excessiva, laxismo excessivo, alcoolismo, violência física e verbal, agressões de qualquer tipo, mentiras, ambiguidades de caráter, hipocrisias, tudo o que podemos considerar pecados complicados para a educação dos filhos, advindos do pecado intrínseco a nós, que é o egoísmo, e a volta para nós mesmos e o fechamento em nós que nos impede de amar corretamente as pessoas e os filhos, vai com certeza, ser passado às outras gerações, que consequentemente vai passar aos seus filhos e assim por diante. Mas foi para isso que Cristo veio. Quando o batismo nos livra do pecado original e nos tornamos cristãos é justamente para rompermos com toda herança do mal. Em Cristo somos uma nova criatura, as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo! Rompa você também com toda herança, trauma, mau exemplo, ou qualquer coisa do mau que você traz em sua vida, e passe a ter uma vida em Cristo, feliz, vida plena, para que o Reino de Deus possa entrar na sua vida e na vida de seus filhos!

Prof.Dra Arlene Denise Bacarji

Graduada em Filosofia (UCDB), três anos de Teologia (Studium Teologicum), Mestrado em Sociologia (UFPR), Mestrado em Teologia (PUC/RS), Doutorado em Teologia (PUC-Rio).
UNINTER EDUCACIONAL S.A.