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Criação: obra amorosa de Deus

Maria Izabel Gomes Morgado

A Conferência nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), na intenção de fecundar o tempo quaresmal, propõe conversão e mudança, através da memória de Jesus vivo, oportunizando o encontro com Ele no jejum (abertura para a vida em Cristo), na oração (súplica e busca pela misericórdia) e na esmola (partilha).
Com o lema “Cultivar e guardar a criação” chama a todos à responsabilidade diante da natureza pelo tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. Bioma é um conjunto semelhante de vida animal e vegetal, entre elementos criados: água, plantas solo, animais, seres vivos numa mesma região, com clima uniforme e história comum de formação. São eles: Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga e Pampa.
Iniciamos nossa formação em meio a uma biodiversidade maravilhosa: indígenas, flora, fauna, águas; e o que restou da natureza original? Qual o legado para as futuras gerações? Para “cultivar e guardar” é preciso conhecer, admirar, permitir que a beleza invada o coração, e, assim, cumprir a palavra de Deus como sinal de conversão.
Planeta Terra, casa comum, bilhões de cidadãos interligados, integrantes, zeladores de meio em que vivem, na promoção da harmonia, de relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho, e, desta forma, motivados pala Palavra, na união com Cristo, no cultivo da oração, no amor a Deus e na solidariedade, é possível tomar consciência da realidade, de como são tratados os biomas brasileiros, e mais, não ficar indiferente. Além de voltar-se para Deus e para o próximo, faz-se urgente atentar-se para a criação que nos cerca.
Desde 1979, a Igreja tem abordado situações existenciais e socioambientais, é chegado então o momento de ver a vida no Brasil com olhares de fé, que protegem e amparam, provocando reflexões, evangelização que gera vida. Nesta abordagem há inúmeras situações a considerar nos biomas brasileiros, entre elas, desmatamento, ausência de saneamento básico, aglomeração em periferias, desemprego, êxodo rural, conflitos territoriais e indígenas, violência contra trabalhadores, cobiça de corporações nacionais e internacionais, processos de desertificação, lutas por reforma agrária, ocupações desordenadas, monoculturas (deserto verde), contaminação de solo e recursos hídricos, prostituição, tráfico de animais, assédio de fazendeiros, enfim, falta de consciência ecológica, ganância capitalista, omissão e/ou conivência de poder público.
A Igreja considera os biomas, além de seus encantos naturais, o lugar onde o ser humano vive e se relaciona com o outro e com Deus, levando em conta o privilégio de estar em meio à megabiodiversidade da maior bacia hidrográfica do mundo na Amazônia; a mata branca e os rios intermitentes da Caatinga; a “caixa d’água do Brasil” no subsolo do Cerrado; a biodiversidade, bacias hidrográficas, manguezais da Mata Atlântica; berçário e abrigo para aves e diversos animais, floradas e a enorme extensão úmida contínua do Pantanal; o rico ecossistema do Pampa; entre outros. Nesta região do estado de São Paulo, encontra-se uma transição de Mata Atlântica e Cerrado.
Toda a criação, inclusive cada bioma brasileiro, é obra de Deus, pertence a Ele e, ao homem é dada a missão do cultivo e guarda; que os seres humanos possam então trabalhar, lavrar, proteger, preservar, velar, mantendo uma relação de reciprocidade responsável e consciente com a natureza, buscando ações que transformem situações de degradação, poluição, lixo, novas doenças (frutos do poder destruidor humano), de ambientes insuportáveis em regeneração e iniciativas de preservação do que resta.
É necessário exigir do poder público a recuperação de áreas degradadas, matas ciliares e nascentes; políticas de saneamento básico; cidadãos participantes e acompanhantes da efetivação do plano diretor dos municípios.
Para melhor direcionamento pode-se observar alguns discursos: São João Paulo II já alertava: “Em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus e, desse modo, acaba por provocar a revolta da natureza mais tiranizada do que governada por ele”.
E o Papa Emérito Bento XVI coloca que a Igreja deve fazer valer sua responsabilidade em público, defendendo a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, protegendo o homem de si mesmo.
Papa Francisco fala da seriedade do perigo da falta de ética nas dinâmicas dominantes (economia e finanças), “...homem e mulher são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo: é a cultura do descarte.”
Surge em 2015 o Laudato Si, documento oficial da Igreja, que convida a todos de boa vontade que repensem as suas responsabilidades para com as gerações futuras, suas ações de modo consequente na questão ecológica global, com desafios locais.
Para tanto, cristãos e não cristãos necessitam conversão pessoal e social, ação de fé e cidadania, comprometimento para com o Criador e respeito aos povos originários, para assim cuidar e guardar cada bioma brasileiro, renovando os diálogos sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação ambiental, procurando discernir quais as adequadas ações.
Enfim, quando o homem maltrata a natureza, maltrata a si mesmo, logo é preciso ouvir o clamor da terra; dos pobres, os menos responsáveis pela destruição, porém os mais vulneráveis. E no tempo quaresmal, durante a Campanha da Fraternidade são propícios a reflexão e o alerta, mas também a proposta de mudanças, transformações e novas condutas, junto da natureza, junto de cada bioma.